sábado, junho 03, 2006

Para onde se MoveAveiro?

[publicado no Diário de Aveiro, 2 de Junho de 2006]


Em anos recentes assistimos por toda a Europa a uma desenfreada onda de privatizações dos serviços básicos e essenciais à população. Portugal não foi excepção e observamos um crescente desinvestimento e esquecimento da coisa pública, que a torna obsoleta e desadequada às necessidades dos cidadãos resultando numa menor utilização e consequentemente em prejuízo. É este prejuízo que justifica a sua venda, como se alguém estivesse interessado em comprar uma empresa condenada a dívidas ou como se a gestão privada fizesse milagres.

Chegado o alegado interesse de investidores estrangeiros na Move Aveiro muitos suspiraram de alívio. Supostamente porque assim a Câmara Municipal se libertaria de encargos com uma empresa municipal deficitária. Mas trata-se de um bom negócio?

Antes de mais é necessário conhecer os investidores, se provém da área dos transportes ou de qualquer outra; e, mais importante ainda conhecer as suas intenções para a MoveAveiro, quais os seus planos e o que pretendem fazer da empresa.

A gestão de uma empresa de transportes por parte de serviços municipais ou de uma empresa privada regem-se por parâmetros bastante diferentes. Enquanto que é do interesse da autarquia que sejam oferecidos os melhores serviços à população mantendo uma perspectiva de rentabilidade; a uma empresa privada interessará aumentar o lucro a todo o custo, pelo que se poderão desenhar dois cenários.

A empresa privada na busca de potenciar o lucro poderá optar pela redução da oferta apenas ao que é altamente rentável, podendo ainda em consequência desta decisão provocar despedimentos. O aumento de preços também não é de descartar. Contudo este cenário é pouco provável.

O cenário mais verosímil é a empresa manter as rotas com pouca afluência de utentes, mas estruturantes para o serviço, mas mediante um subsídio camarário. E caso haja a intenção de oferta de passes sociais ou de manutenção dos preços gerais abaixo de certo nível é fácil de ver quem arcaria com a factura.

Podemo-nos ainda interrogar se a empresa privada estaria na disposição de manter o projecto BUGA, recentemente reformulado.

A existência de interesse privado na MoveAveiro demonstra que a empresa tem potencial de lucro. Com a sua venda a Câmara estaria a abandonar lucro futuro e a abraçar uma despesa para que a MoveAveiro mantenha a mesma qualidade de serviços. Os elevados custos do mercado de emissões de gases de estufa em breve serão uma realidade instalada pelo que os transportes públicos apresentam um valor económico acrescido.

Aveiro tem a particularidade de ser das poucas cidades a deter transportes públicos municipalizados, o que se pode revelar uma enorme vantagem competitiva. A análise do tecido urbano de Ílhavo e das suas praias próximas de Aveiro e a ligação dos municípios da linha do Vouguinha, Albergaria e Águeda, denotam a necessidade urgente de transportes intermunicipais. Ora no caso de nenhuma entidade pública deter uma única empresa de transportes, como seria possível implementar tal intermunicipalidade?

A privatização da empresa de transportes públicos, um bem essencial para a população, não traz pois vantagens a longo prazo. Se a curto prazo se desafogariam as dívidas dos devaneios com dinheiros públicos, a população sofreria com piores serviços de transporte e consequentemente menor qualidade de vida. Panorama apenas contrariado se edilidade abrisse os cordões à bolsa para manter o que já existe e que passaria a não ser seu.

A MoveAveiro é deficitária e a sua rentabilização no presente e no futuro tarda. Contudo no passado, nomeadamente no último mandato do executivo anterior, apostou-se erradamente na redução de rotas e horários. Mero desinvestimento.

Aveiro apresenta uma densidade populacional baixa e uma elevada dispersão, o que torna mais difícil a rentabilização dos transportes públicos. Neste contexto uma aposta forte nos mini-bus para linhas menos movimentadas parece a mais correcta. A única forma de maximizar o retorno do investimento camarário nos transportes é angariar mais utentes e isso só poderá ser feito mediante uma oferta que corresponda de facto às necessidades da população.

1 Comments:

Blogger  said...

bastante melhor agora ;)c

segunda-feira, junho 05, 2006 11:12:00 da manhã  

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