sábado, julho 08, 2006

Desporto vivo

[publicado no Diário de Aveiro, 7 de Julho de 2006]


Nos últimos anos assistimos a um enorme investimento público no desporto em Portugal e, no caso particular, em Aveiro. Este esforço resultou na cobertura nacional de pavilhões desportivos nas escolas permitindo que todos os alunos tenham condições para a formação e prática desportiva.

Contudo não podemos deixar de reparar que a esmagadora maioria do investimento nesta área tem sido dispendido em infra-estruturas de suposta utilidade pública, mas proibitivas ao público, passando ainda por apoios e subsídios ao desporto profissional.

Acentua-se em Portugal e no mundo a mudança do desporto-vivido para o desporto-visto. A tendência para que os praticantes se reduzam e aumente o número de espectadores. Se a prática saudável do desporto acarreta apenas lucros marginais, a difusão e visionamento de imagens de desporto traz consigo lucros publicitários milionários, constituindo-se assim o desporto-visto e, em particular o futebol, como uma indústria.

O desporto praticado eleva a qualidade de vida do cidadão e, consequentemente, diminui a incidência de doenças crónicas típicas da sociedade ocidental, acarretando uma menor despesa dos serviços de saúde pública. Poderíamos dizer que esta prática também é desejada pelas companhias de produtos desportivos, principais exploradoras do desporto-visto, contudo assim não se passa. O objectivo destas companhias é a venda dos seus produtos para o uso do quotidiano, que escoa maiores quantidades, do que para o desporto-vivido.

A publicidade do desporto-visto aliado às sociedades desportivas profissionais são uma actividade francamente lucrativa mas que em pouco contribuem para o desenvolvimento social e humano. Nesta perspectiva o que justifica os subsídios e apoios de entidades públicas a este tipo de desporto em detrimento de outras empresas e projectos da mesma área ou de outras de cariz social, educativo ou cultural?

Em Aveiro construiu-se um segundo estádio monodesportivo e a Câmara Municipal (CM) subsidia directamente e indirectamente (através da EMA) o Beira-Mar. O que justifica tamanho apoio a um único clube profissional da região, sem que daí se retire qualquer vantagem concreta para a população quando comparado com a situação da prática desportiva dos munícipes?

A discrepância no apoio ao desporto é tanto maior que a CM é responsável pela manutenção e concepção do parque desportivo do concelho, mas dessa tarefa se tem furtado. Nestes espaços desportivos ao ar livre, de um modo geral, acentua-se a degradação e a carência de material e manutenção. Um exemplo concreto é a falta de iluminação nocturna destes espaços. Ora o investimento neste aspecto seria irrisório comparado com os recentes devaneios faraónicos, mas traria vantagens reais para a prática desportiva dos munícipes, que deste modo terão, por exemplo, que alugar pavilhões desportivos de escolas (que já uma vez foram pagos pelos seus próprios impostos).

O que leva a edilidade a despender uma parte considerável do seu orçamento na construção de um estádio e demais apoios a um clube de futebol profissional e não fornecer boas condições para a prática desportiva da população? Porque apoia a indústria do desporto-visto e não incentiva a prática de desporto quer pela existência de condições como de campanhas para o efeito?

A CM tem bastantes credores que justamente reclamam o que é seu. Haverão muitas dívidas urgentes e necessárias, quer a nível social e educativo. Contudo ultimamente a discussão tem-se centrado na dívida ao Beira-Mar, muito pela capacidade de penetração desta instituição nos meios de comunicação social, fazendo-o na defesa justa dos seus legítimos interesses e direitos. Porém, existindo vários credores e não existindo dinheiro para, a curto prazo, pagar a todos é necessário de alguma forma definir prioridades das dívidas mais prementes e necessárias, nomeadamente a nível social e educativo. Em contraste temos a recente penhora sofrida pela CM por uma dívida à empresa que fornece a alimentação escolar, despesa para a qual a própria CM recebe comparticipação estatal.

Se o Clube exigia o pagamento atempado da sua dívida também adiantou que estaria disponibilidade para receber “em espécie”, sugestão ao que parece bem recebida pela edilidade que coloca a hipótese de saldar a dívida dando terrenos. Aqui não deslumbramos qual a estratégia da CM em relação a todas as suas dívidas. Quem define a forma de pagamento? A CM ou os credores? Pagará a CM muitas das suas dívidas com terrenos? Quem procederá à avaliação dos terrenos? Que uso futuro pode ser dado aos terrenos? Empobrecemos assim a CM em virtude de protocolos e negócios de duvidoso interesse público sem antes definirmos a política para protocolos semelhantes no futuro? É importante que a Câmara Municipal esclareça os seus munícipes da sua politica em relação a estes assuntos – como em todos os outros – antes de avançar medidas avulsas.

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