quinta-feira, outubro 19, 2006

Nem tudo o que brilha é ouro

Uma longa crítica à proposta de gestão privada do Rivoli e aos protestantes barricados. Poderia chamar o texto de: “há que saber estar contra todos” ou “quem vai para a rivolução avia-se em terra”.

  1. Sou manifestamente contra a gestão privada do Teatro Rivoli. De certo é muito apetecível, agora que o Estado investiu uns milhões a restaurar o Rivoli, que seja entregue à gestão privada para que quem nunca gastou um cêntimo no Teatro posso agora retirar dividendos. Como sempre é pretendido que o Estado fique com o osso e os privados com o lombo.

  1. Considero que nem tudo tem que dar lucro. É fundamental dispôr das ferramentas para a formação de públicos.

  1. As regras do concurso para a gestão privada do Rivoli fazem com que apenas uma grande empresa consiga ganhar, assim teremos La Feria. Esqueçam a formação de públicos, esqueçam a oferta diversificada, esqueçam o incentivo à criação artística. Teremos pura e simplesmente uma gestão na busca do lucro, metendo para isso o máximo de peças com sucesso de bilheteira expectável. Lá teremos as revistas de La Feria e umas comédias bacocas.

  1. A desobediência civil – mesmo que ilegal – é uma forma legítima de protesto e manifestação de liberdade, ainda que numa sociedade democrática. Veja-se o exemplo de Rosa Parks, que nos EUA recusou sentar-se nos bancos traseiros dos autocarros (reservados a negros) e todos os diversos actos de desobediência civil que consequentemente se desencadearam.

  1. A questão que coloco é se os 13 agentes culturais que se recusaram a sair do Rivoli e por lá ficaram 3 dias desempenharam um bom serviço à causa. Reconheço que tiveram o mérito de centrar as atenções do país para o problema, contando ainda com os media muito amigáveis com a causa.

  1. Ao longo dos tempos fiquei crescentemente com a impressão do insucesso da coisa. Nunca parece ter existido uma táctica. Apenas estavam ali à espera que alguma coisa acontecesse. Rui Rio vetou a iniciativa à ignorância, o que deixou os activistas desorientados. Depois disso a vitória só seria alcançada se a Ministra lá se deslocasse para conversar, como tinha sugerido dias antes.

  1. Jogar para o empate: a única solução depois de ignorados pela Ministra e por Rui Rio. Esse empate seria uma intervenção policial violenta, com nódoas negras para a tv. Nem a isso tiveram direito.

  1. Os agentes culturais barricados desguarneceram o flanco permitindo o ataque fácil dos opositores, aproveitado ao máximo: os subsídios a que tiveram direito, a média de 30 espectadores que o espectáculo que desencadeou a ocupação teve. Ou seja permitiram a descentralização da discussão daquilo que devia ser o essencial.

  1. Pelo meio os barricados destilaram muito queixume porque a Câmara Municipal progressivamente lhes cortou a electricidade e a água quente, e meteu o ar condicionado no máximo do frio. Por fim foram fechados os portões e impedida a entrada de alimentos. Mas queixam-se de quê? Que esperavam? Ocupam o edifício obrigando à transferência dos espectáculos daí para a Casa da Música e para o Teatro Carlos Alberto e esperavam que o Rui Rio lhes fosse servir pizza? Acham que quando em Maio de 68 ocuparam a Sorbone não estavam à espera das fortes investidas políciais? Mas foi com essa visão da ilegalidade e do sacrifício a que iriam estar sujeitos que decidiram avançar. Valia a pena.

  1. Em suma, a ocupação foi obra de rivolucionários amadores digamos assim. Ao longo dos 3 dias nunca se dislumbrou qualquer estratégia. Vetados ao obscuro pelo poder e sem táctica limitaram-se a esperar pelo momento em que finalmente a polícia os tirasse dali, já que qualquer outra saída seria ainda mais inglória.

6 Comments:

Blogger migas (miguel araújo) said...

Caro Nelson
Praticamente de acordo com a visão da questão.
Discordando apenas que a cultura tenha que ser exclusivamente so sector público.
E...
A desobediência civil – sendo ilegal – não é uma forma legítima de protesto e manifestação de liberdade, principalmente numa sociedade democrática.
Cumprimentos

sexta-feira, outubro 20, 2006 11:54:00 da tarde  
Blogger Nelson Peralta said...

A meu ver o que é ilegal não é necessariamente ilegítimo; e o que é legal não é necessariamente.

Vex.: vereadores dirigentes de um clube de futebol negociarem apoios camarários a esse clube - situação legal, mas...

A cultura não deve ser apenas sector público. Quanto maior a diversidade melhor. A questão aqui é que o privado não traz mais oferta, apenas substitui a oferta que o sector público oferecia.

sábado, outubro 21, 2006 3:17:00 da manhã  
Blogger migas (miguel araújo) said...

Nelson
Acho que entendemos a ilegitimidade, nos casos concretos, de formas diferentes (ainda bem - haja democracia e pluralismo).
No caso de vereadores e futebóis, a questão não deve ser encarada como ilegitimidades ou legitimidades.
Mesmo que legal, podemos não considerar ético. Que é outra questão.
No caso do Rivoli, não sei se o privado traz ou não mais oferta. Mas parece-me que devrá trazer. Até porque o "público" até à data nada trouxe de benéfico à cultura portuense com o "elitismo" cultural de acções par 30 espectadores e sempre os mesmos.
Cumprimentos

sábado, outubro 21, 2006 5:26:00 da tarde  
Blogger Rui Rebelo said...

Arte e Entretenimento

Nos dias de hoje, com a globalização, a massificação do consumo e o crescimento exacerbado da indústria do lazer, torna-se cada vez mais difícil distinguir o entretenimento da arte. O ideal consumista converteu a arte num produto de estética populista, fruto da cultura do entretenimento e formatado à lógica do espectáculo.
A lei do rentável foi matando a capacidade de discernimento do indivíduo, tornando-o apenas em consumidor ou consumível .
“Arts and Entertainments” - Os motores de busca na internet teimam em colocá-los sempre no mesmo directório e o facilitismo da estandardização faz com que essa lógica se vá apropriando do imaginário colectivo.
Ambas fazem parte da cultura universal mas com papeis substancialmente diferentes na sua capacidade de intervenção no indivíduo, na sociedade e, consequentemente, na História.

Muitos animais se divertem e entretêm mas apenas um faz arte – o Homem.
O entretenimento (sem as mais valias do convívio, da pedagogia, da ginástica, etc.) está associado apenas ao prazer e a arte vai muito para além disso, é muito mais abrangente e está inevitavelmente vinculada à inteligência, à intuição, ao raciocínio, ao sentimento, à imaginação, à expressão e a tudo o que nos transcende.
Jogar consola com o meu filho é entretenimento. Olharmo-nos nos olhos e sentirmos o amor que nos une, compreendendo e realizando a importância desse amor, é arte.
Um diverte, a outra sensibiliza, emociona, perturba e faz pensar, tocando, modificando, sendo dinâmico e vivo, fazendo evoluir.
Por vezes tocam-se, misturam-se, como o azul e o amarelo que dão verde. Mas não deixam de ser coisas completamente distintas.

Entreter é o espaço entre o que se teve e o que se vai ter, é o tempo em que não se tem nada, em que não se é nada, em que não se existe. Logo é necessário passar esse tempo para outra coisa ter, ser ou existir por nós. Recorre-se então ao passatempo que é uma espécie de encher um copo sem fundo, onde se tem uma sensação de satisfação e a ilusão da acção em si. Passar o Tempo é a coisa mais estúpida que se pode (não) fazer na vida. Simboliza a inutilidade por excelência e é sinónimo de inactividade e improdutividade. É queimar tempo de existência. Não no sentido da meditação e da introspecção mas no sentido da passividade no seu estado mais estupidificante.
Entretenimento é darem-nos algo já feito quando nós não estamos a fazer nada, é darem-nos uma comida já mastigada, ingerida e digerida…

O objectivo da McDonalds é fazer dinheiro ou boa comida? Claro que para os meus filhos é a melhor comida do mundo. Sabe bem, dá-lhes prazer comer. Mas será que lhes faz bem? Quando tinha a idade deles tinha o mesmo prazer a comer fruta arrancada directamente da árvore…
Não sei o que é que a McDonalds põe na comida para que as crianças (e não só) gostem tanto e quase se viciem, bloqueando o gosto por outros sabores, mas sei o que o Sr La Féria faz para entreter tanta gente… a resposta está nos sinónimos de entreter.
Entreter: deter, paliar (com promessas); enganar; recrear; divertir; distrair; suavizar.
O resto é atirar areia para os olhos e partir do principio que as pessoas não sabem fazer nada dando-lhes tudo feito. O que causa um efeito de satisfação de quem nada fez mas comprou feito. Há o pronto a comer, o pronto a vestir e o pronto a assistir…

Para acabar digo apenas que não sou contra a existência da McDonalds e do sr. La Féria desde que não contribuam para o desaparecimento progressivo da boa comida e do bom teatro (quero dizer da comida saudável e do teatro inteligente).

terça-feira, dezembro 19, 2006 4:36:00 da tarde  
Blogger Rui Rebelo said...

Arte e Entretenimento

Nos dias de hoje, com a globalização, a massificação do consumo e o crescimento exacerbado da indústria do lazer, torna-se cada vez mais difícil distinguir o entretenimento da arte. O ideal consumista converteu a arte num produto de estética populista, fruto da cultura do entretenimento e formatado à lógica do espectáculo.
A lei do rentável foi matando a capacidade de discernimento do indivíduo, tornando-o apenas em consumidor ou consumível .
“Arts and Entertainments” - Os motores de busca na internet teimam em colocá-los sempre no mesmo directório e o facilitismo da estandardização faz com que essa lógica se vá apropriando do imaginário colectivo.
Ambas fazem parte da cultura universal mas com papeis substancialmente diferentes na sua capacidade de intervenção no indivíduo, na sociedade e, consequentemente, na História.

Muitos animais se divertem e entretêm mas apenas um faz arte – o Homem.
O entretenimento (sem as mais valias do convívio, da pedagogia, da ginástica, etc.) está associado apenas ao prazer e a arte vai muito para além disso, é muito mais abrangente e está inevitavelmente vinculada à inteligência, à intuição, ao raciocínio, ao sentimento, à imaginação, à expressão e a tudo o que nos transcende.
Jogar consola com o meu filho é entretenimento. Olharmo-nos nos olhos e sentirmos o amor que nos une, compreendendo e realizando a importância desse amor, é arte.
Um diverte, a outra sensibiliza, emociona, perturba e faz pensar, tocando, modificando, sendo dinâmico e vivo, fazendo evoluir.
Por vezes tocam-se, misturam-se, como o azul e o amarelo que dão verde. Mas não deixam de ser coisas completamente distintas.

Entreter é o espaço entre o que se teve e o que se vai ter, é o tempo em que não se tem nada, em que não se é nada, em que não se existe. Logo é necessário passar esse tempo para outra coisa ter, ser ou existir por nós. Recorre-se então ao passatempo que é uma espécie de encher um copo sem fundo, onde se tem uma sensação de satisfação e a ilusão da acção em si. Passar o Tempo é a coisa mais estúpida que se pode (não) fazer na vida. Simboliza a inutilidade por excelência e é sinónimo de inactividade e improdutividade. É queimar tempo de existência. Não no sentido da meditação e da introspecção mas no sentido da passividade no seu estado mais estupidificante.
Entretenimento é darem-nos algo já feito quando nós não estamos a fazer nada, é darem-nos uma comida já mastigada, ingerida e digerida…

O objectivo da McDonalds é fazer dinheiro ou boa comida? Claro que para os meus filhos é a melhor comida do mundo. Sabe bem, dá-lhes prazer comer. Mas será que lhes faz bem? Quando tinha a idade deles tinha o mesmo prazer a comer fruta arrancada directamente da árvore…
Não sei o que é que a McDonalds põe na comida para que as crianças (e não só) gostem tanto e quase se viciem, bloqueando o gosto por outros sabores, mas sei o que o Sr La Féria faz para entreter tanta gente… a resposta está nos sinónimos de entreter.
Entreter: deter, paliar (com promessas); enganar; recrear; divertir; distrair; suavizar.
O resto é atirar areia para os olhos e partir do principio que as pessoas não sabem fazer nada dando-lhes tudo feito. O que causa um efeito de satisfação de quem nada fez mas comprou feito. Há o pronto a comer, o pronto a vestir e o pronto a assistir…

Para acabar digo apenas que não sou contra a existência da McDonalds e do sr. La Féria desde que não contribuam para o desaparecimento progressivo da boa comida e do bom teatro (quero dizer da comida saudável e do teatro inteligente).

terça-feira, dezembro 19, 2006 4:36:00 da tarde  
Blogger Nelson Peralta said...

Também não sou contra a existência do entretimento à La Feria. Sou é contra a cedência de um epsaço pago por todos nós para que alguém fique com os lucros e ainda para mais não oferecendo um cardápio variado de oftera artística.

terça-feira, dezembro 19, 2006 5:36:00 da tarde  

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