quarta-feira, fevereiro 02, 2011

O capitalismo arrebata-corações

Publicado n'A Comuna


O Conscious Capitalism é um think tank preocupado com o futuro de todos nós e encontrou uma forma de melhorar as nossas vidas: um capitalismo consciente "com o potencial de melhorar o desempenho das empresas e simultaneamente promover a qualidade de vida para milhares de milhões de pessoas". Explicam que este processo é "conduzido natural e internamente a partir de dentro das empresas", ilustrando ainda que tudo isto parte de um líder consciente que influencia um negócio consciente, que por sua vez gera um capitalismo consciente. Bem sei que pode parecer uma chatice e até anti-democrático que o desenvolvimento social e económico da Humanidade esteja dependente e seja ditado por meia dúzia de CEO's e do seu bom coração, mas há que confiar na sua ternura...


Essa ternura é bem visível quando se mostram preocupados com os nossos corações. Sobre a longa batalha do século XX esclarecem que, "embora o capitalismo de mercado livre tenha vencido de forma decisiva essa luta épica, falhou em capturar a mente dos intelectuais e o coração dos cidadãos". Dão ainda conta do seu profundo desassossego pelo facto das empresas, "provavelmente as instituições mais influentes do mundo", serem vistas como "gananciosas, egoístas, exploradoras" e "apenas interessadas em maximizar os lucros". Fossemos mal intencionados e pela leitura do seu site podíamos concluir que mais do que as condições de vida o que os move é manter-nos tolerantes ao sistema vigente. Felizmente, um dos seus embaixadores deslocou-se a semana passada a Lisboa para deixar bem clara ideia numa conferência para gestores de topo.

Roy Spence, que já trabalhou para Bush pai e Clinton, acredita que no futuro só as empresas que tem como propósito melhorar a vida das pessoas vão dominar o mercado. O experiente consultor empresarial vê esta crise como um momento ideal para isso mesmo, já que as pessoas "gastam cada vez menos" e, como tal, "se quisermos uma parte do dinheiro dos consumidores, temos de ter uma parte do desejo e vontade dos consumidores". Aí está uma bela forma de fazerem o dinheiro saltar dos nossos bolsos.

O excelso embaixador brindou a assistência, doutos CEOs portugueses, com alguns exemplos de empresas que já navegam nos mares da consciência. O Wal-Mart, que "poupa o dinheiro das pessoas para que vivam melhor". Ofuscado pelos preços baixos e, por ventura inconscientemente, o consultor deixou escapar os múltiplos atropelos laborais desta rede de supermercados, nomeadamente os baixos salários, as deploráveis condições de trabalho, a exploração de mão-de-obra imigrante "ilegal", as ilegalidades no trabalho juvenil, a parca cobertura do seguro de saúde, entre outras minudências. A sua fúria anti-sindicatos com pressões a trabalhadores e mesmo encerramento das lojas com demasiados sindicalizados também foram esquecidas. Igualmente, as comunidades dizimadas e as práticas predatórias de mercado não lhe tocaram o coração. A BMW, que "permite que as pessoas experimentem a alegria de conduzir", foi outra das nomeadas. Desengane-se quem procurava respostas para a mobilidade colectiva, eficiente e sustentável. O capitalismo, mesmo o consciente, declara-se. Não é seu objectivo melhorar a vida em sociedade, antes criar e dar resposta a caprichos individuais.

Vendo bem as coisas, Roy Spence, publicitário por excelência, foi de uma clarividência e utilidade extrema. "Wal-Mart: Save money. Live Better" e "BMW: sinta o prazer de conduzir" são isso mesmo, campanhas publicitárias ao serviço da conquista de mais e mais mercado. O capitalismo, mesmo este destinado a arrebatar corações, tem a exploração no seu código genético procurando apenas na cosmética e na boa consciência a força para se manter hegemónico e tolerado. Bem podem tentar dourar o capitalismo, mas foram e são as conquistas das lutas populares que nos dão melhores condições de vida!

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