sexta-feira, outubro 07, 2011

Sete mil milhões é muita gente?

Publicado no esquerda.net


Estima-se que no final deste mês a população mundial atinja os 7 mil milhões. Há 50 anos éramos apenas 3 mil milhões. Há cada vez mais vozes a repetir que os recursos do planeta não chegam para todos, abrindo as portas à pobreza e à fome. Uma ideia que começou na direita mas se generalizou. Mas será que o problema é a demografia ou a desigualdade no acesso aos recursos?


Malthus, a demografia e a ética protestante


De acordo com Thomas Malthus, as populações crescem em proporção geométrica ao passo que os recursos em progressão aritmética. Chega assim inevitavelmente o momento de crise onde não há alimento para tanto indivíduo. Ou seja, a população cresce até ao ponto em que esgota os recursos sendo aí devastada pela fome e pobreza. A redução populacional proporciona melhores condições de vida, a população reproduz-se e recomeça o ciclo.

De igual modo, estes eventos afectam o salário: com demasiados trabalhadores no mercado, o seu preço desce. Neste período há que trabalhar mais para ganhar o mesmo que antes, logo não há grande vontade nem tempo para casar e criar família. A população estagna. Como o trabalho é mais barato, mais cidadãos são contratados para arar as terras, produzindo mais alimentos e atingindo a subsistência alimentar. A população fica então numa situação confortável e recomeça o ciclo de reprodução até à crise demográfica seguinte.

É já identificada em Malthus, um reverendo anglicano, uma ética muito própria do capitalismo: a pobreza e a fome funcionam como incentivo para as virtudes do trabalho árduo. A pobreza é uma condição natural e a miséria uma necessidade para conter o crescimento demográfico. A "lei dos pobres" - na altura o apoio social existente antes do Estado-Providência - devia ser abolida para incentivar a produção nacional.

Contemporâneo da revolução industrial onde, para sobreviver e porque a máquina capitalista necessitava de mão-de-obra intensiva, as famílias tinham muitos descendente o académico inglês com a sua teoria responsabiliza os trabalhadores pela sua condição. As soluções preconizadas vão ainda no sentido de uma maior alienação das classes pobres, seja ao defender a redução da fertilidade ou ao justificar como naturais as condições e o rendimento do trabalho.

A sua narrativa coloca a demografia no papel de força motriz da História. A luta de classes sucumbe à naturalidade e necessidade da pobreza e da exploração. Porém, é esta a teoria que hoje encanta da direita à esquerda.


Neo-malthusianismo, do novo colonialismo ao verde chique


O planeta não dá para tantos. Há que diminuir a população mundial. Depois de um ressurgimento a meio do século passado, com a aproximação aos sete mil milhões de habitantes o avanço desta ideia nos meios sociais e políticos não tem tido precedentes nos últimos anos, atingindo ecologistas e mesmo alguns partidos verdes.

Tradicionalmente, no ocidente, muitos conservadores evocam a teoria para defender a redução da gravidez na adolescência, controlo da imigração e a redução da população nos países em desenvolvimento. Digamos que nenhum dos argumentos é propriamente genial. Cada vez mais as mulheres ocidentais são mães mais tardiamente e com menos filhos; sem imigrantes, agravava-se o envelhecimento da sociedade; e a pegada ecológica de um norte-americano equivale à de 200 etíopes. De facto, estas posições podem servir a sua agenda política, mas não respondem a nenhum problema.

A tendência recente contudo tem sido outra e que tem penetrado noutros sectores sociais. Longe do moralismo e do celibato defendidos nos primórdios da teoria, David Attenborough - um agnóstico militante - elege o crescimento populacional como um dos maiores problemas do planeta, ao mesmo tempo que ataca a doutrina católica como o principal factor desse problema. Para o famoso documentarista, há apenas duas formas de resolver a coisa: contracepção ou uma maior taxa de mortalidade. Neste último cenário, acrescenta que também é assim com as outras criaturas. "Fome ou doença ou predação. O que traduzido para termos humanos significa fome ou doença ou guerra - pelo petróleo ou água ou comida ou minerais ou pastagem ou simplesmente espaço para viver".

Há ainda quem decida não ter filhos, não como uma opção pessoal ou social, mas enquanto acto político. Há quem o tenha nomeado: "GINK: green inclinations, no kids". A argumentação é robusta, rompe com a visão conservadora vigente e deixa os egoísmos de lado. Lisa Hymas resume a ideia no artigo de opinião "Decidi não ter filhos por razões ambientais" que assina no The Guardian ao mesmo tempo que compara a sua pegada ecológica com a de cidadãos etíopes: "A responsabilidade do crescimento populacional tende a ser atribuído às outras pessoas: africanos e asiáticos que «tem mais filho do que podem alimentar», imigrantes no nosso país com as suas «famílias grandes», e até mães solteiras no «centro da cidade». Mas na realidade, o problema populacional é todo sobre mim: branca, classe-média, eu americana".


Gente a mais ou concentração a mais?


David Attenborough aponta as pistas correctas, mas falha na sua análise. A ideia de solidariedade de Lisa Hymas não é errada, apenas deslocada. As guerras por recursos já existem, mas não para satisfazer as necessidades de consumo de populações mas sim as necessidades de produção das elites. A perspectiva intercontinental é essencial, mas dirigir a luta para a não-natalidade militante é inútil. A transformação só é conseguida se a luta se dirigir ao problema.

Com a mudança para mão-de-obra especializada e com planeamento familiar, a tendência dos países em desenvolvimento será a da diminuição das taxas de natalidade. Mas o problema nem sequer é do número, mas sim do nível e modelo de consumo. E é este modelo, com os níveis e padrões do consumo ocidental, que está a ser exportado para todo o globo, o que é de facto insustentável para o planeta e para a Humanidade. O modelo capitalista só é mesmo sustentável para quem acumula. O planeta dá para todos se a classe dominante concentrar menos...

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domingo, março 27, 2011

A Etiópia está à venda

Publicado no esquerda.net

Imaginem terrenos férteis com uma área semelhante à do distrito de Lisboa arrendada durante 50 anos, por menos de 700 euros/mês. Não é preciso imaginar. É apenas mais um negócio oferecido pelo governo da Etiópia. No total, a oferta de terrenos nestas condições equivale já à área dos quatro maiores distritos portugueses: Beja, Évora, Santarém e Castelo Branco. Cerca de 35% da área continental de Portugal, três milhões de hectares, um quadrado com 173 km de lado.

Ao mesmo tempo, o governo etíope tem em curso um programa de relocalização das populações dessas áreas. O argumento é o de agrupamento em povoações maiores para assim assegurar o acesso ao abastecimento de água, à rede viária, a escolas, hospitais, transportes, etc.. A simultaneidade entre os dois acontecimentos é mera coincidência, dizem os responsáveis. A verdade é que a promessa de melhores infra-estruturas e maior qualidade de vida não tem passado disso mesmo, uma promessa, e o clima de medo e opressão está instalado. Só durante este ano, mais de 15 mil pessoas serão relocalizadas.

Apesar da Etiópia ser um dos países com maiores problemas de subnutrição do planeta – recebeu no ano passado 700 mil toneladas de alimentos como ajuda humanitária – os investidores vão produzir colheitas de alto valor como soja, óleo de palma, algodão e açúcar para exportação ao invés de cereais e outros vegetais para consumo das populações etíopes. Aos impactos sociais junta-se a devastação ambiental extrema: os terrenos são queimados, as florestas abatidas e as zonas húmidas drenadas. Uma reconfiguração do ecossistema a grande escala.

Estes factos foram revelados por uma reportagem do The Guardian. O governo etíope defende esta industrialização em larga escala como necessidade e única solução para o desenvolvimento. Curiosamente, no início deste mês, um relatório das Nações Unidas mostrou que a agricultura ecológica, desenvolvida por pequenos agricultores e sem se basear em químicos e pesticidas, pode dobrar a produção alimentar em África nos próximos dez anos.

A mega-exporação de que falava no início, com o tamanho do distrito de Lisboa, terá 60 mil trabalhadores que vão ganhar menos de um dólar por dia. A sua missão será trabalhar as terras que sempre foram suas e para as quais não podem voltar com pleno direito. O governo garante ainda aos investidores vários incentivos fiscais e estradas construídas com dinheiros públicos.

O benefício para a população etíope é imperceptível. Ficam sem os alimentos e sem as terras para a produzir. O futuro fica comprometido. O poder do Estado e o seu aparelho repressivo garantem a venda a retalho do país e colocam a economia ao serviço da extorsão. Tudo à custa da segurança alimentar e da escravização “moderna” da sua população. Os poucos que lucram com o negócio - o fundo de pensões do Reino Unido, outros fundos financeiros e os tubarões internacionais do ramo - agradecem e mantém a sua aura de responsabilidade social.

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quarta-feira, fevereiro 02, 2011

O capitalismo arrebata-corações

Publicado n'A Comuna


O Conscious Capitalism é um think tank preocupado com o futuro de todos nós e encontrou uma forma de melhorar as nossas vidas: um capitalismo consciente "com o potencial de melhorar o desempenho das empresas e simultaneamente promover a qualidade de vida para milhares de milhões de pessoas". Explicam que este processo é "conduzido natural e internamente a partir de dentro das empresas", ilustrando ainda que tudo isto parte de um líder consciente que influencia um negócio consciente, que por sua vez gera um capitalismo consciente. Bem sei que pode parecer uma chatice e até anti-democrático que o desenvolvimento social e económico da Humanidade esteja dependente e seja ditado por meia dúzia de CEO's e do seu bom coração, mas há que confiar na sua ternura...


Essa ternura é bem visível quando se mostram preocupados com os nossos corações. Sobre a longa batalha do século XX esclarecem que, "embora o capitalismo de mercado livre tenha vencido de forma decisiva essa luta épica, falhou em capturar a mente dos intelectuais e o coração dos cidadãos". Dão ainda conta do seu profundo desassossego pelo facto das empresas, "provavelmente as instituições mais influentes do mundo", serem vistas como "gananciosas, egoístas, exploradoras" e "apenas interessadas em maximizar os lucros". Fossemos mal intencionados e pela leitura do seu site podíamos concluir que mais do que as condições de vida o que os move é manter-nos tolerantes ao sistema vigente. Felizmente, um dos seus embaixadores deslocou-se a semana passada a Lisboa para deixar bem clara ideia numa conferência para gestores de topo.

Roy Spence, que já trabalhou para Bush pai e Clinton, acredita que no futuro só as empresas que tem como propósito melhorar a vida das pessoas vão dominar o mercado. O experiente consultor empresarial vê esta crise como um momento ideal para isso mesmo, já que as pessoas "gastam cada vez menos" e, como tal, "se quisermos uma parte do dinheiro dos consumidores, temos de ter uma parte do desejo e vontade dos consumidores". Aí está uma bela forma de fazerem o dinheiro saltar dos nossos bolsos.

O excelso embaixador brindou a assistência, doutos CEOs portugueses, com alguns exemplos de empresas que já navegam nos mares da consciência. O Wal-Mart, que "poupa o dinheiro das pessoas para que vivam melhor". Ofuscado pelos preços baixos e, por ventura inconscientemente, o consultor deixou escapar os múltiplos atropelos laborais desta rede de supermercados, nomeadamente os baixos salários, as deploráveis condições de trabalho, a exploração de mão-de-obra imigrante "ilegal", as ilegalidades no trabalho juvenil, a parca cobertura do seguro de saúde, entre outras minudências. A sua fúria anti-sindicatos com pressões a trabalhadores e mesmo encerramento das lojas com demasiados sindicalizados também foram esquecidas. Igualmente, as comunidades dizimadas e as práticas predatórias de mercado não lhe tocaram o coração. A BMW, que "permite que as pessoas experimentem a alegria de conduzir", foi outra das nomeadas. Desengane-se quem procurava respostas para a mobilidade colectiva, eficiente e sustentável. O capitalismo, mesmo o consciente, declara-se. Não é seu objectivo melhorar a vida em sociedade, antes criar e dar resposta a caprichos individuais.

Vendo bem as coisas, Roy Spence, publicitário por excelência, foi de uma clarividência e utilidade extrema. "Wal-Mart: Save money. Live Better" e "BMW: sinta o prazer de conduzir" são isso mesmo, campanhas publicitárias ao serviço da conquista de mais e mais mercado. O capitalismo, mesmo este destinado a arrebatar corações, tem a exploração no seu código genético procurando apenas na cosmética e na boa consciência a força para se manter hegemónico e tolerado. Bem podem tentar dourar o capitalismo, mas foram e são as conquistas das lutas populares que nos dão melhores condições de vida!

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sexta-feira, dezembro 10, 2010

Como a realeza, vê do seu Rolls Royce o aumento das propinas

quinta-feira, novembro 04, 2010

O apetite voraz dos mercados

Publicado no esquerda.net

A comida está cada vez mais cara. Nos últimos seis meses, o preço mundial do trigo e do milho aumentou 57%, o arroz 45%, o açúcar 55%. No último ano, a inflação dos produtos alimentares atingiu 21% no Egipto e 17% na Índia. Em apenas três meses, o preço do arroz aumentou 100% na Mauritânia e o milho 57% em Moçambique. Mais de mil milhões de pessoas passam fome no mundo. Esta realidade vem piorar a situação.

Com o colapso dos mercados financeiros, os investidores passaram a especular em mercados mais seguros como o dos produtos alimentares. Já desde o colapso das dotcoms, em 2001, que se regista este influxo. Mas foi com a crise subprime em 2007/08 que ocorreu a grande deslocação, resultando na duplicação do preço dos alimentos básicos e juntando 150 milhões de pessoas à lista dos que passam fome no planeta. A resposta não se fez esperar com motins em mais de trinta países. De momento, a situação ainda não está tão dramática como há dois anos, mas os sinais de alerta de uma nova crise alimentar estão aí, assim como os protestos, para já em Moçambique, Egipto, Sérvia e Paquistão.

A tendência de preços altos pode ainda ser agravada com os efeitos das alterações climáticas que destruíram parte das colheitas na Rússia e Paquistão, e que obrigaram já vários países a rever em baixa as suas previsões. Um relatório1 recente vem também mostrar que há cada vez menos solo agrícola: a cada ano perdem-se cinco a dez milhões de hectares devido à degradação ambiental e mais vinte milhões convertidos para uso industrial ou urbanização. O crescente uso do solo e/ou alimentos para produção de energia é outra das agravantes. Nos Estados Unidos, por exemplo, 30% do milho colhido em 2008 foi transformado em bioetanol.

As próprias Nações Unidas reconhecem2 que estes preços elevados se devem em muito à “especulação dos investidores institucionais que não têm nenhum conhecimento ou interesse em produtos agrícolas”, e que apenas investem aí porque os mercados financeiros secaram. O mercado dita que se pode remeter parte da população mundial para a fome, a penúria e a morte. O mercado dita que não só esse é um acto legítimo, como é louvável, meritório e merecedor da devida retribuição financeira. O mercado está errado. É tempo de nos libertarmos da sua ditadura.

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1 “Access to Land and the Right to Food”, Report of the Special Rapporteur on the right to food presented at the 65th General Assembly of the United Nations [A/65/281], 21 October 2010
2 “Food Commodities Speculation and Food Price Crises. Regulation to reduce the risks of price volatility”, Briefing note by the Special Rapporteur on the right to food, September 2010

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sexta-feira, outubro 29, 2010

Pagar salários reduz a competitividade!

Publicado no esquerda.net


Os empresários e economistas do Fórum para a Competitividade têm um projecto para o país. Acabar (pelo menos temporariamente, dizem) com as taxas de IVA reduzida (6%) e intermédia (13%) e harmonizar o imposto de todos os produtos e serviços em 23%. Para quê? Para permitir um corte na taxa social única de 23,75% para 3,75%, com o objectivo de assim reduzir em 20% os seus custos laborais.

O Presidente do Fórum, Ferraz da Costa, declarou ainda que partilha da opinião de um estudo que defende a necessidade de Portugal reduzir os salários reais em 30% "para manter a competitividade da maior parte dos sectores tradicionais". Sobre uma eventual vinda do FMI assegurou que não o assusta, "até é melhor".

O patronato português encontrou uma saída para a sua crise: o esmagamento dos custos do trabalho. Eis a definição de competitividade de uma burguesia habituada a viver de rendas e negócios estatais, incapaz de produzir e inovar. O princípio é atroz, para assegurar o crescimento das taxas de lucro de alguns, todos devemos pagar mais pela satisfação das nossas necessidades básicas. No caso da maior parte dos produtos alimentares, o IVA aumentaria quatro vezes. Esta medida penalizaria mais as famílias pobres que gastam a maior parte do seu rendimento apenas a garantir a sua sobrevivência. A redução do salário disponível empobreceria ainda mais a população, acrescentando recessão à recessão e tornando-a ainda mais refém da banca.

Nos corpos sociais do Fórum para a Competitividade podemos encontrar alguma da mais fina-flor do poder político e financeiro do país, entre os quais nove ex-ministros, dois ex-presidentes da Confederação da Indústria Portuguesa , do antigo presidente da Associação de Bancos e ainda o actual director da campanha presidencial de Cavaco Silva. O projecto ideológico é profundo, a Segurança Social deve ser suportada apenas pelos trabalhadores. São os arautos do Estado mínimo a exigir a sua maximização: "mais Estado" na cobrança de impostos aos trabalhadores, para sobrar "mais Estado" para os seus negócios.

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terça-feira, agosto 24, 2010

Zizek sobre o papel da caridade no capitalismo contemporâneo

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quinta-feira, agosto 12, 2010

SA, licença para matar

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Agosto de 2006, a multinacional Trafigura transportou lixo tóxico para a Costa do Marfim, despejando-o de seguido em vários locais a céu aberto em redor de Abidjan, a maior cidade do país com quatro milhões de habitantes. Esta acção provocou a morte de pelo menos quinze pessoas e 31 mil registaram problemas de saúde, nomeadamente complicações respiratórias, queimaduras de pele, hemorragias, vómitos e diarreia.

Antes do despejo em África, a Trafigura tentara entregar os resíduos a uma empresa no porto de Amesterdão que acabou por não os aceitar por verificar que não se tratava de resíduos de lavagem de tanques como a multinacional alegava. A Trafigura ter-se-à metido num negócio em que lucraria sete milhões de dólares de uma só vez: a compra de gasolina mexicana contaminada com enxofre que depois tratava a bordo com soda caústica. Os resíduos tóxicos eram o resultado deste tratamento.

A multinacional sempre negou qualquer responsabilidade. Defende que os seus resíduos só provocariam sintomas ligeiros semelhantes ao de uma gripe e que para além disso tinha subcontratado uma empresa para os transportar até à Costa do Marfim. Contudo, ao mesmo tempo que manteve e mantém esta linha de argumentação foi fazendo acordos. Logo em 2007 pagou 200 milhões de dólares ao governo da Costa do Marfim. No ano passado, acordou extra-judicialmente pagar um total de 45 milhões de dólares às 31 mil pessoas afectadas como compensação pelos danos à saúde. Pouco mais de mil euros por pessoa.

Pelo caminho, se a empresa tentou resolver o caso dos resíduos assassinos fora do tribunal, recorreu aos tribunais de vários países para impedir vários órgãos de comunicação de relatar os factos. No seu esforço mais surpreendente, a multinacional tentou impedir que se noticiasse os procedimentos parlamentares de um deputado inglês sobre o caso. Contudo, esta proibição foi contraproducente já que uma campanha na internet levou a informação ainda mais longe.

Há algumas semanas, um tribunal holandês considerou a Trafigura culpada de despachar resíduos perigosos para Amesterdão, de ocultar a sua natureza e de os exportar para a Costa do Marfim. A multinacional foi condenada ao pagamento de um milhão de euros e dois funcionários subalternos a uns meses de prisão com pena suspensa. Pela primeira vez, a empresa fora considerada culpada pelo sucedido, apesar de já em 2009 um relatório das Nações Unidas a apontar como responsável e de entretanto a imprensa ter publicado uma troca de mails entre a hierarquia da empresa demonstrando que estavam bem cientes da perigosidade dos resíduos e a intencionalidade do despejo.

Esta é uma história que se conta a si própria. Uma multinacional em busca do lucro imediato não hesita em colocar dezenas de milhar de pessoas em risco. Em virtude das suas acções deliberadas morreram pelo menos quinze pessoas, para além dos feridos e da contaminação de vários locais em redor de uma cidade populosa. Se estes actos fossem perpetrados por um indivíduo, por mais que se esforçasse, teria que ser julgado por estes crimes e, por mais dinheiro que atirasse para a fogueira, caso fosse considerado culpado teria que cumprir pena por aquelas mortes. Como se trata de uma multinacional parece viver na protecção de uma redoma de vidro, tratando das mortes que provoca como trata dos seus negócios: quanto custa?

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quinta-feira, junho 17, 2010

As finanças de uma catástrofe

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A BP encetou vários procedimentos de poupança na segurança e no material para além de acelerar os trabalhos na plataforma Deepwater Horizon no Golfo do México como forma de atingir mais rapidamente lucros. Esta conduta aumentou grandemente os riscos de um derrame, quem o diz é o próprio Congresso norte-americano que afirma ainda que as maiores petrolíferas mundiais adoptam os mesmos atalhos que a BP. Esta conduta resultou na morte de onze trabalhadores e numa dos maiores catástrofes ambientais de todos os tempos. Enquanto sociedade temos que colocar várias questões. Como é que deixámos que as coisas chegassem a este ponto? E o que devemos fazer para que estas situações não se repitam e que quem as pratica não lucre com elas?

As finanças da BP estão sólidas, os seus activos suplantam os passivos em 100 mil milhões de dólares e nos últimos cinco anos a empresa obteve um lucro anual de 24 mil milhões. Antes de mais, com estes números percebemos que a indústria petrolífera é altamente rentável – ou não estivesse a sociedade feita à medida dos seus interesses – e pouco redistributiva da riqueza gerada a partir de um recurso natural. Mas sabemos também que afinal os 1,6 mil milhões já gastos até ao momento e os 20 mil milhões que Obama quer que a empresa deposite numa conta caucionada para funcionar como fundo de compensação para as vítimas não suplantam um ano de lucro da empresa.

Os analistas são unânimes, a possibilidade da BP falir é remota. E, na eventualidade disso acontecer, o mais provável é que o faça apenas para limitar as perdas. Foi aliás este o caso de uma subsidiária da Transocean Ltd, a proprietária da plataforma petrolífera, que foi punida por tentar declarar falência apenas para limitar as suas responsabilidades financeiras face ao derrame.

Deparamo-nos assim com a desconstrução de um mito: a sociedade avança com a busca do lucro por parte de empresas privadas. Foi essa busca desenfreada que nos colocou nesta situação. E, apesar da empresa explorar um bem público – já que foi a natureza que produziu o petróleo –, sabemos que a mesma pode continuar a operar na sua área de negócio. Aliás, reduzindo este caso ao absurdo podemos esperar que uma empresa possa destruir metade do planeta e continuar a operar desde que tenha dinheiro para o reconstruir. O único critério para que uma empresa continue a explorar um recurso de todos e de que todos precisamos deve ser a sua capacidade financeira?

Barack Obama disse que se a BP estivesse sob as suas ordens demitiria o CEO da empresa, Tony Hayward. Este comentário de impotência, voluntária ou não, coloca em cheque outro mito: parece que afinal perante as petrolíferas o Presidente dos Estados Unidos não é o homem o mais poderoso do planeta. Esta constatação é tanto mais evidente que estas declarações assumiram a forma de incidente diplomático com o Reino Unido.

Obama, que foi eleito com o pressuposto de que não aumentaria a exploração de petróleo offshore e cuja Administração autorizou esta plataforma sem grandes exigências ou controlo, com o derrame imparável há já dois meses, parece ter agora descoberto a pólvora. O Prémio Nobel da Paz critica a “filosofia falhada que aceita que as empresas escrevam as regras do jogo e sirvam como árbitro”. Nada que não tenhamos já ouvido falar sobre a crise financeira, sem nenhum resultado prático a não ser a da injecção massiva de dinheiro nessas mesmas empresas e na manutenção da ditadura das agências de notação, dos bancos comerciais e dos especuladores sobre os estados.

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segunda-feira, maio 31, 2010

Desfazendo mitos

Publicado n'A Comuna


Nos últimos dez anos, os defensores e intérpretes do sistema dominante espalharam aos quatro ventos o que seria de nós quando o Bloco de Esquerda chegasse ao poder. Incansavelmente, quem nos governa e os seus defensores andaram a anunciar as nefastas consequências que as políticas de igualdade do Bloco trariam: aumento do desemprego, perda de poder de compra e até um ataque concertado dos mercados a Portugal.

O que a realidade nos mostra? Um crescente exército de desempregados que actualmente conta com mais de 700 mil homens e mulheres, uma economia débil e, pasme-se, o Ministro das Finanças já nos explicou que o país é alvo de um ataque concertado dos mercados!

Recordando as palavras dos governantes e dos fazedores de opinião da última década sabemos que a actual situação económica e social do país é o resultado de políticas erradas. Concordamos no diagnóstico, apenas precisamos de usar a sua lógica para saber que as políticas erradas foram as que vieram a aplicar e a defender no país.

Mas desta caminhada sabemos ainda mais. Não só trouxeram o país para o perigoso destino que auguravam para um governo da esquerda socialista, como chegamos aqui exactamente por causa das políticas de desigualdade que nos garantiam ser o motor do desenvolvimento económico e social. Portugal é hoje um dos países mais desiguais da Europa. Há quem trabalhe para ser pobre: dos dois milhões de pobres do país, mais de 75% trabalha ou é pensionista. A pobreza de quem produziu riqueza durante toda a sua vida contrasta com os 17,4 milhões de euros que os quatro maiores bancos portuguesas lucram por dia ou com os 3,1 milhões de euros que António Mexia recebe por ano.

Ao longo das últimas décadas foram-nos dizendo que a assimetria na distribuição de riqueza era essencial para incentivar e premiar os especuladores e capitalistas: estes audazes correm riscos e é esta sua acção que faz a sociedade avançar, logo a sociedade deve retribuir. Mas também aqui sabemos hoje que a história estava mal contada. De facto, a nossa vida é um risco, quer se abra um café na esquina ou simplesmente se exerça uma profissão assalariada. Nestas duas actividades existe de facto o risco de ir à falência ou de perder o emprego. Contudo, como vimos com esta crise, as grandes instituições financeiras que andaram a ludibriar os seus clientes não correm qualquer risco já que os Estados, com o dinheiro de todos nós, as salvam da falência. E não só não há risco como afinal esta actividade orientada para a ganância não nos trouxe nem desenvolvimento económico nem social, apenas a crise.

Portanto, no momento em que nos dizem que a nossa organização social estava assente sobre um pressuposto errado – o mérito da desigualdade – não se apressam a corrigir os resultados dessas políticas, pelo contrário, retiram uns milhares de milhões de euros do dinheiro de todos nós para o atribuir a quem beneficiou desta política de desigualdade e agravam-na baixando ainda mais os rendimentos do trabalho.

A realidade coloca a ideologia dominante em cheque. Há que expor as suas contradições. Este não é o momento para que “todos” façamos sacrifícios, até porque já vimos que esse “todos” quer dizer “mais uns que outros”. Este é o momento de pedir contas a quem nos governou e a quem beneficiou das políticas de desigualdade.

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segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Para quê justiça social se podemos ter mais um produto financeiro?

Com as contradições da crise financeira a agudizarem o confronto social, os líderes mundiais eram só sorrisos e promessas de meter mão nos desmandos do mercado. As consequências da crise continuam aí, mas como julgam que o conflito social acalmou, já voltam a rejeitar a Taxa Tobin em prol da criação de um novo mercado: seguros que cubram as crises e as grandes falências.

A economia vai-se desenhando em formato de bola de neve.

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sexta-feira, janeiro 22, 2010

A luta de classes chega à cerveja


Durante duas semanas na Bélgica, os trabalhadores bloquearam três fábricas da cervejeira Anheuser-Busch InBev (a maior empresa mundial do ramo, maioritáriamente de capitais belgas e brasileiros, com 25% do mercado global e proprietária das principais marcas de cerveja do mundo). A cerveja começou a escassear nos supermercados e bares belgas.

Os trabalhadores protestavam contra a medida anunciada pela administração de cortar em 10% a sua força de trabalho na Europa Ocidental, num total de 800 postos de trabalho. Este anúncio de despedimentos chegou depois de serem conhecidos os lucros da empresa no último trimestre de 2009: 1,55 mil milhões de dólares. Esta gritante contradição entre os lucros de apenas três meses e a vontade e o poder de despedir 800 pessoas é ilustrativa dos tempos que correm e do sistema que nos governa.

Ao fim de duas semanas, a empresa recuou aceitando desistir da sua intenção inicial, passar a negociar com os sindicatos e, last but not least, pagar os dias em que tinha colocou os trabalhadores em lay off. O bloqueio é levantado para esta tarde, para quando estava prevista a exibição ao ar livre em frente à frábrica do filme de Michael Moore "Capitalism: a Love Story". A exibição pública do filme mantém-se.

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quarta-feira, dezembro 02, 2009

Agora, digam-me algo de novo


Parece que aquilo que já todos sabíamos é agora oficial: "Parcerias com privados têm cada vez menos risco para as empresas".

As parcerias público-privadas, geralmente baseadas no pagamento de rendas, são o melhor de todos os negócios. O negócio não precisa de ser bem sucedido, o Estado garante o lucro ou melhor ainda, cede monopólios naturais à exploração privada. Como vemos, o Estado neoliberal é bastante forte na redistribuição de riqueza...

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segunda-feira, novembro 16, 2009

A indigência é um nicho de mercado pouco explorado




O valor da alimentação está sujeito a especuladores privados, fazendo com que o seu preço não esteja relacionado com a sua necessidade social social mas sim com o proveito económico de meia-dúzia à custa da fome de milhões. Porém, a FA não vê qualquer problema na especulação

As empresas privadas exploram com apoios públicos e impunidade a capacidade agrícola de países em vias de desenvolvimento para gerar mais-valias através da exportação agrícola para o norte, não gerando nesses países qualquer ganho social ou qualquer contribuição para a sustentabilidade alimentar da região (bem pelo contrário).

As empresas privadas tem gerado fortunas através da monopolização que tem gerado na produção agrícola com a perda de espécies/variedades, a patente sobre novas variedades e seus produtos químicos específicos.

Contudo, para o director da FAO os "privados" não tem que contribuir para a resolução de nenhum deste e de outros problemas que causam e de que beneficiam, como ainda devem beneficiar do lucro potencial que a pobreza actual lhes pode conferir. É esta a solução preconizada por Jacques Diouf e a FAO.

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terça-feira, outubro 13, 2009

E foi preciso contratar peritos para o assunto?



Se comprar um pão pago 5% de imposto. Se comprar uma t-shirt pago 20% de imposto. Se comprar acções e apesar de nada produzir e de não satisfazer nenhuma necessidade básica, não pago impostos! Ora aí está um política activa do Estado no sentido de incentivar o jogo no mercado de capitais. Num país com 2 milhões de pobres e uma desigualdade social gritante foi preciso contratar peritos para dizer o óbvio.

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domingo, junho 28, 2009

Meritocracia para totós

terça-feira, junho 16, 2009

Esta lição também foi cara, mas não aprendemos nada

segunda-feira, abril 27, 2009

Quantos destes são os capitalistas, financeiros ou políticos responsáveis por ela?

quarta-feira, abril 15, 2009

1929 revisited


Xutos & Pontapés - Sem Eira Nem Beira

Desde Janeiro já foram anunciados mais de 778 mil despedimentos em todo o mundo, aqui está uma nova oportunidade de negócio: o exército de reserva aumenta logo, como o trabalho é uma mercadoria, pode-se efectuar um dumping social na contratação... por cá o código de trabalho já está atento a esta nova realidade, os novos contratados serão mais precários. O desemprego só se torna um problema quando se transforma em contestação social, até lá é essencial à economia.

Preços anuais recuam nos EUA pela primeira vez em mais de meio século, aí está uma nova oportunidade de negócio para quem anda a armazenar dinheiro. Os bancos centrais andam a injectar quantidades alucinogénas de dinheiro no sistema, a taxas quase de borla. Contudo vemos nas notícias que o crédito é rarefeito, que é quase impossível obter um e que as hipotecas estão a ser executadas. Ou seja, a banca está a armazenar o dinheiro "novo" e a ir buscar o "velho", sem dinheiro a circular a economia colapsa, as empresas fecham, surge uma crise de deflação. Ora, nesse cenário onde as fábricas, os recursos e tudo o mais ficam mais baratos (ou o dinheiro a valer mais, dado ter-se tornado numa mercadoria mais rara) quem é que têm liquidez para comprar tudo? Quem andou a armazenar dinheiro há nossa custa.

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sexta-feira, março 20, 2009

Descansa Polga


Depois do Sporting ter levado 0-5 e 7-1 do Bayern Munique, eis que um jornalista do The Telegraph faz uma análise lúcida do sucedido, a culpa é do capitalismo: «Sporting's plight shows why Blatter and Platini may have a point».

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