quinta-feira, novembro 04, 2010

O apetite voraz dos mercados

Publicado no esquerda.net

A comida está cada vez mais cara. Nos últimos seis meses, o preço mundial do trigo e do milho aumentou 57%, o arroz 45%, o açúcar 55%. No último ano, a inflação dos produtos alimentares atingiu 21% no Egipto e 17% na Índia. Em apenas três meses, o preço do arroz aumentou 100% na Mauritânia e o milho 57% em Moçambique. Mais de mil milhões de pessoas passam fome no mundo. Esta realidade vem piorar a situação.

Com o colapso dos mercados financeiros, os investidores passaram a especular em mercados mais seguros como o dos produtos alimentares. Já desde o colapso das dotcoms, em 2001, que se regista este influxo. Mas foi com a crise subprime em 2007/08 que ocorreu a grande deslocação, resultando na duplicação do preço dos alimentos básicos e juntando 150 milhões de pessoas à lista dos que passam fome no planeta. A resposta não se fez esperar com motins em mais de trinta países. De momento, a situação ainda não está tão dramática como há dois anos, mas os sinais de alerta de uma nova crise alimentar estão aí, assim como os protestos, para já em Moçambique, Egipto, Sérvia e Paquistão.

A tendência de preços altos pode ainda ser agravada com os efeitos das alterações climáticas que destruíram parte das colheitas na Rússia e Paquistão, e que obrigaram já vários países a rever em baixa as suas previsões. Um relatório1 recente vem também mostrar que há cada vez menos solo agrícola: a cada ano perdem-se cinco a dez milhões de hectares devido à degradação ambiental e mais vinte milhões convertidos para uso industrial ou urbanização. O crescente uso do solo e/ou alimentos para produção de energia é outra das agravantes. Nos Estados Unidos, por exemplo, 30% do milho colhido em 2008 foi transformado em bioetanol.

As próprias Nações Unidas reconhecem2 que estes preços elevados se devem em muito à “especulação dos investidores institucionais que não têm nenhum conhecimento ou interesse em produtos agrícolas”, e que apenas investem aí porque os mercados financeiros secaram. O mercado dita que se pode remeter parte da população mundial para a fome, a penúria e a morte. O mercado dita que não só esse é um acto legítimo, como é louvável, meritório e merecedor da devida retribuição financeira. O mercado está errado. É tempo de nos libertarmos da sua ditadura.

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1 “Access to Land and the Right to Food”, Report of the Special Rapporteur on the right to food presented at the 65th General Assembly of the United Nations [A/65/281], 21 October 2010
2 “Food Commodities Speculation and Food Price Crises. Regulation to reduce the risks of price volatility”, Briefing note by the Special Rapporteur on the right to food, September 2010

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segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Para quê justiça social se podemos ter mais um produto financeiro?

Com as contradições da crise financeira a agudizarem o confronto social, os líderes mundiais eram só sorrisos e promessas de meter mão nos desmandos do mercado. As consequências da crise continuam aí, mas como julgam que o conflito social acalmou, já voltam a rejeitar a Taxa Tobin em prol da criação de um novo mercado: seguros que cubram as crises e as grandes falências.

A economia vai-se desenhando em formato de bola de neve.

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sexta-feira, janeiro 22, 2010

A luta de classes chega à cerveja


Durante duas semanas na Bélgica, os trabalhadores bloquearam três fábricas da cervejeira Anheuser-Busch InBev (a maior empresa mundial do ramo, maioritáriamente de capitais belgas e brasileiros, com 25% do mercado global e proprietária das principais marcas de cerveja do mundo). A cerveja começou a escassear nos supermercados e bares belgas.

Os trabalhadores protestavam contra a medida anunciada pela administração de cortar em 10% a sua força de trabalho na Europa Ocidental, num total de 800 postos de trabalho. Este anúncio de despedimentos chegou depois de serem conhecidos os lucros da empresa no último trimestre de 2009: 1,55 mil milhões de dólares. Esta gritante contradição entre os lucros de apenas três meses e a vontade e o poder de despedir 800 pessoas é ilustrativa dos tempos que correm e do sistema que nos governa.

Ao fim de duas semanas, a empresa recuou aceitando desistir da sua intenção inicial, passar a negociar com os sindicatos e, last but not least, pagar os dias em que tinha colocou os trabalhadores em lay off. O bloqueio é levantado para esta tarde, para quando estava prevista a exibição ao ar livre em frente à frábrica do filme de Michael Moore "Capitalism: a Love Story". A exibição pública do filme mantém-se.

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quarta-feira, janeiro 20, 2010

A luta de classes segue dentro de momentos


António Regala, cabeça de lista do PCP à Assembleia Municipal de Aveiro e agora Presidente da Comissão Administrativa do Beira-Mar, adianta que vai cumprir a sua promessa de dar início à constituição de uma sociedade anónima desportiva (SAD) no clube que dirige.

António Regala avança para a SAD, sociedade anónima por acções, com o argumento de que o estudo elaborado por economistas a viabiliza.

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terça-feira, outubro 13, 2009

E foi preciso contratar peritos para o assunto?



Se comprar um pão pago 5% de imposto. Se comprar uma t-shirt pago 20% de imposto. Se comprar acções e apesar de nada produzir e de não satisfazer nenhuma necessidade básica, não pago impostos! Ora aí está um política activa do Estado no sentido de incentivar o jogo no mercado de capitais. Num país com 2 milhões de pobres e uma desigualdade social gritante foi preciso contratar peritos para dizer o óbvio.

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domingo, junho 28, 2009

Meritocracia para totós

terça-feira, junho 16, 2009

Esta lição também foi cara, mas não aprendemos nada

quarta-feira, abril 15, 2009

1929 revisited


Xutos & Pontapés - Sem Eira Nem Beira

Desde Janeiro já foram anunciados mais de 778 mil despedimentos em todo o mundo, aqui está uma nova oportunidade de negócio: o exército de reserva aumenta logo, como o trabalho é uma mercadoria, pode-se efectuar um dumping social na contratação... por cá o código de trabalho já está atento a esta nova realidade, os novos contratados serão mais precários. O desemprego só se torna um problema quando se transforma em contestação social, até lá é essencial à economia.

Preços anuais recuam nos EUA pela primeira vez em mais de meio século, aí está uma nova oportunidade de negócio para quem anda a armazenar dinheiro. Os bancos centrais andam a injectar quantidades alucinogénas de dinheiro no sistema, a taxas quase de borla. Contudo vemos nas notícias que o crédito é rarefeito, que é quase impossível obter um e que as hipotecas estão a ser executadas. Ou seja, a banca está a armazenar o dinheiro "novo" e a ir buscar o "velho", sem dinheiro a circular a economia colapsa, as empresas fecham, surge uma crise de deflação. Ora, nesse cenário onde as fábricas, os recursos e tudo o mais ficam mais baratos (ou o dinheiro a valer mais, dado ter-se tornado numa mercadoria mais rara) quem é que têm liquidez para comprar tudo? Quem andou a armazenar dinheiro há nossa custa.

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segunda-feira, março 30, 2009

Profissões do admirável mundo novo: o cowboy que coça os tomates



Contra as ETTs (Empesas de Trabalho Temporário) [a silhueta da menina Pires, via Spectrum]

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quarta-feira, janeiro 21, 2009

Valor de uso e valor de troca


Por apenas 999,99 dólares podes comprar uma aplicação para o iphone que se limita a apresentar a representação de uma pedra preciosa no ecrã. Por apenas 2695 dólares podes comprar a t-shirt "fuck the recession". [via Bugflux]

Esta transformação do valor em preço revela bem que o interesse colectivo e a racionalidade não fazem parte desse processo.

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terça-feira, janeiro 13, 2009

Consentimos a tua existência porque existes para produzir


Vives mais? Então tens que indemnizar o capital e trabalhar mais. É claro que qualquer mordomo da economia de mercado diz imediatamente que apenas assim é possível garantir a sustentabilidade da segurança social, esquecendo que é o seu próprio modelo de produção que assim o exige. E, mesmo dentro desse modelo, exigem que o aumento de custos da segurança social sejam assegurados pelo trabalhador e nunca por aquilo que por ele é produzido.

O enorme avanço tecnológico não serviu para reduzir a jornada laboral, apenas para aumentar a produção. Viver para trabalhar, trabalhar para sobreviver - é o que este modelo de produção nos oferece, que apelativo...

Se por cada ano que vivo "acima do esperado" tenho que trabalhar mais, então obrigadinho mas para isso dispenso a economia de mercado. Opto por um sistema e modo de produção que me trate como humano e não como alguém cuja existência só é válida porque e quando produz mais-valia para o capital.

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terça-feira, dezembro 02, 2008

Interesse público: salvar as grandes fortunas


O Estado, todos nós portanto, garante 450 milhões de euros de fundos aos seis bancos que vão salvar o Banco Privado Português. Antes deste aval do Estado, portanto em condições normais de mercado, ninguém nem nenhum banco pegou naquela instituição financeira. Obviamente porque era um mau negócio e com um risco inerente demasiado grande, agora assumido pelo Estado.

O BPP é um banco de investimento e não um banco comercial. O BPP assumia-se como um banco gestor de grandes fortunas, tendo apenas três mil clientes. Ao longo dos anos, foram distribuídos dividendos pelos accionistas (30 milhões nos últimos três), os administradores tiveram salários de luxo e os clientes viram os seus investimentos serem altamente renumerados.

Portanto, ao longo de todos estes anos os accionistas e investidores enriqueceram à custa da especulação. À luz dessa mesma especulação, o banco aproximou-se do colapso e em vez de serem os responsáveis pela situação e os lucros anteriores a garantir a viabilidade do banco, todos os contribuientes são chamados a garantirem os lucros da ganância (mesmo quando ela gera prejuízos), ao mesmo tempo que transformam este banco num novo produto financeiro a ser devorado por outros. Mesmo numa lógica de economia de mercado, a má gestão é premiada à custa do esforço e trabalho de todos nós. Estranha missão de interesse público.

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segunda-feira, novembro 03, 2008

Estado babysitter?

Cartaz via Spectrum

Agora que o banco da malta do PSD está em processo de nacionalização, convém saber se o Estado se arma em babysitter e toma conta do negócio enquanto a coisa corre mal e o devolve ao capital quando a coisa começar a da lucros, ou se assume as suas responsabilidades no mercado financeiro.


«Os accionistas do BPN poderão vir a receber indemnizações pela nacionalização do banco, que terão por base o valor actual da instituição». O Estado nacionalizou o banco porque este estava à beira da falência e se afigurava irrecuperável, para além de que esta condição resultou de gestão com "legalidade duvidosa". Portanto, interessa saber que indemnização é esta, tanto mais que o grupo financeiro em causa há pouco tempo precaveu-se com uma reestruturação que separou o banco do resto do grupo, passivos para um lado, activos para outro. O Estado nacionalizou os passivos!


Quem deixa de pagar as prestações ao banco está desgraçado. Quem monta um pequeno negócio e vai à falência está desgraçado. Resta saber se os tubarões, gente fina do PSD, vão pagar os prejuízos que a sua gestão de "legalidade duvidosa" provocou, ou se seremos todos nós a pagar por eles e ainda a pagar-lhes uma indemnização pelo incómodo.

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domingo, novembro 02, 2008

Mãos ao ar, isto é um assalto


Vou ser o pouco orgulhoso proprietário do Banco Português de Negócios. Pela primeira vez desde 1975, o Estado Português irá proceder a uma nacionalização, no caso do BPN. No mesmo momento em que privatiza negócios de lucro assegurado e monopólios naturais (Galp, EDP, etc), nacionaliza-se aquilo que é prejuízo assegurado.

Há menos de um mês, a Caixa Geral de Depósitos já tinha concedido um empréstimo de 200 milhões ao BPN. Há 15 dias o Ministro assegurava que não havia bancos portugueses em perigo (desconhecia? mentiu?). Agora, nacionaliza o mesmo banco que apresenta perdas de 700 milhões de euros, em contornos ainda não esclarecidos.

Moral da história: não há dinheiro para o sistema de saúde, para a educação, para a segurança social, mas para salvar Dias Loureiro e Miguel Cadilhe da sua própria ganância (iminências do PSD, um mesmo apontado como potencial Primeiro-Ministro) o Estado arranja logo dinheiro. O Partido Socialista e Sócrates mostram a sua essência!

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sexta-feira, outubro 24, 2008

A banca nacionalizou o Governo


Imperdível este artigo de opinião de Ricardo Araújo Pereira sobre a crise financeira: A banca nacionalizou o Governo.

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quinta-feira, outubro 23, 2008

Inimputável...

segunda-feira, outubro 20, 2008

Estimula-me que eu gosto (actualizado)

O plano Paulson de $ 700 mil milhões para salvar as empresas financeiras e o próprio sistema era tão bom e tão adequado, que o presidente do Fed já pede um segundo plano.

Também hoje o governo Finlandês prometeu € 4 mil milhões para "investir" em bancos e € 50 mil milhões em garantir empréstimos de bancos (ou seja absorver a sua companente de risco). Por sua vez o governo Belga vai injectar € 1,5 mil milhões de euros numa única seguradora. E ainda neste dia longo, o governo Holandês injectou € 10 mil milhões no banco ING.

E a partir de hoje, os bancos portugueses podem recorrer à garantia de € 20 mil milhões concedida pelo governo Português, que ao contrário do Alemão não estipulou qualquer condição.

Adenda às 21h: E a Suécia anunciou um plano de € 152 mil milhões. Bolas que o dia não acaba!

Adenda às 21h13: A França injectou € 10,5 mil milhões nos seis maiores bancos do país. O dia vai longo...

Adenda às 20h: E parece que a crise financeira pode criar mais 20 milhões de desempregados no próximo ano. Não há direito, estes tipos vão viver à custa dos Estados e receber "rendimento mínimo" para não trabalhar! Não há direito! Os milhões do Estado são para masturbar a economia, não para sustentar quem não quer trabalhar!

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domingo, outubro 12, 2008

Governos com uma causa


O Governo vai disponibilizar até 20 mil milhões em garantias aos bancos, o que equivale a 11,7% do PIB. Considero que o Estado deve dar a garantia aos clientes dos bancos caso estes vão à falência (o que é bem diferente). Agora, como os economistas dizem, o que conta é o sinal que se dá ao mercado, e o sinal é bem claro: se as coisas correrem mal, nós estamos aqui para garantir a solvência das empresas financeiras. É evidente que esta mensagem será incorporada nas decisões de gestão a serem tomadas pelos bancos.

Não deixa de ser curioso que a obsessão com o défice abaixo de 3% tenha levado à perda de direitos dos trabalhadores e ao pagamento massivo de impostos por parte destes, que a idade da reforma tenha aumentado, etc. Mas quando falamos de salvar bancos, o Governo não hesita em tomar uma medida que, se accionada, aumentaria astronomicamente o défice. De igual forma, vários países desenvolvidos tem procedido a um aumento colossal do seu défice para salvar os bancos.

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quarta-feira, outubro 08, 2008

O cão que tenta morder a sua cauda

Cartoon via O Nadir dos Tempos

Perdi-me nas contas, mas foi um dia em cheio! O Banco de Inglaterra nacionalizou parcialmente os maiores bancos da ilha por 64,3 mil milhões de euros e abriu uma linha de crédito a curto prazo de 258 mil milhões de euros. O Banco do Japão interveio hoje pelo 16º dia consecutivo na economia, desta feita com a injecção de 11 mil milhões de euros. Entretanto, a Reserva Federal Americana está a emprestar dinheiro de borla (taxa de juro 1,5%).

Mas a melhor parte para mim é a justificação do Governo Inglês para a ruinosa nacionalização parcial: «O grande problema é que se não fizermos isto, os bancos deixam de emprestar dinheiro entre eles e se não emprestam entre eles também não nos vão emprestar a nós. Isto está a passar -se em todo o mundo.» - Alistair Darling

Esta argumentação faz-me lembrar o cão que desalmadamente tenta apanhar essa coisa estranha que é a sua cauda. Segundo esta teoria, o Estado faz nacionalizações ruinosas e cria rodos de dinheiro para que os bancos continuem a emprestar dinheiro.

Ora, o dinheiro em causa é válido porque o Estado lhe confere essa autoridade (delegou a criação de dinheiro ao Banco de Inglaterra e consequentemente nos demais). Portanto, se os bancos não conseguem fazer uso dessa autoridade ou a usaram indevidamente, muito simples: o Estado assume novamente essa autoridade. E não nos podemos esquecer que essa autoridade foi delegada de acordo com a crença neoliberal de que a coisa privada torna a coisa melhor. Caso ainda não tenham reparado, a financeirização da economia que isso permitiu é exactamente a causa desta crise.

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quarta-feira, outubro 01, 2008

Os maus negócios enquanto preceito ideológico

Publicado no Ecoblogue


Com o Fim da História, o neoliberalismo assumiu-se como uma ideologia com uma certeza científica determinista dos seus propósitos, é assim um credo imune à realidade.

No presente momento, os gestores privados, guiados pela ganância do lucro, perderam as poupança, as pensões de reformas e as habitações de milhões de cidadãos e voltam-se para o Estado suplicando pela sua intervenção e por gigantescas injecções de dinheiro para solucionar o problema por eles criado. Contudo, a realidade não demove a fúria privatizadora dos políticos do poder que continuam a glorificar a gestão privada como a solução para todos os nossos problemas.

No meio do caos do mundo financeiro, o governo vai privatizar 7 dos 8% que ainda detém da GALP. No passado recente a privatização da GALP fez de Américo Amorim o mais ricos dos portugueses ricos, em claro prejuízo do Estado: em pouco tempo as acções passaram a valer o dobro. Para mais, o Estado deixou de deter um mecanismo de intervenção no mercado e de regulação de preços, com o resultado à vista: uma subida de preços lesiva para os cidadãos. O dogma dispensa a confrontação com a realidade.

Em Aveiro decorre um processo de privatização igual a tantos outros: a empresa de mobilidade (MoveAveiro) chegou ao ponto de ruína financeiro e patrimonial, onde os autocarros avariados são já tantos que os disponíveis nem sempre chegam para garantir o serviço. Os responsáveis por esta situação alvoram que a privatização é a única solução. Para tal vai-se concessionar a empresa às fatias, sendo de esperar que a autarquia continue com os serviços economicamente deficitários ao passo que os lucrativos são concessionados, agravando o défice de exploração. Para mais, trata-se de um negócio puramente rentista: a autarquia pagará uma renda até 1,25 milhões de euros anuais a quem concessionar os serviços. Portanto, o cidadão deixa de financiar um serviço público e passa a ser o garante do lucro de um negócio privado. A ideologia justifica-se a si mesma: num sistema liberal a acumulação de capital é justificada pela existência de risco, porém neste tipo de negócio o Estado assume o risco deixando o lucro para o privado.

Um pouco por todo o lado, as autarquias avançam freneticamente para a privatização da água. A apropriação privada deste recurso natural é ilegítima e injustificada: a água não é produzida e existe em quantidade limitada, pelo que a sua posse confere uma vantagem competitiva ao proprietário, sem que se gere qualquer mais-valia para a sociedade. Mas, para além desta questão, a privatização da água é também um mau negócio.

A escassez de água potável é cada vez mais notória: durante o Verão, Barcelona viu-se obrigada a importar água em navios e a impor inúmeras limitações ao seu uso. Porém, Portugal continua com um modelo de turismo assente em campos de golfe.

Se em Portugal a privatização da água é um fenómeno recente, nos Estados Unidos já data dos anos ’90 e regista-se agora um fenómeno interessante: inúmeras comunidades contestam fortemente o serviço privado de águas. Em vários condados o serviço de água foi mesmo comprado de volta ou, quando os privadas não a queriam vender, foi expropriado e nacionalizado. De facto, a água na esfera privada triplicou de preço, e com a nacionalização o seu preço baixou 55%. A gestão privada da água é regida pelo lucro e não pela preservação do recurso nem pela importância do serviço público. É isto que nos espera, mas a crença teleológica dispensa a análise da realidade.

No fundo, estas e outras privatizações respondem ao preceito ideológico de que o cidadão não detém qualquer direito, mas apenas necessidades que são suprimidas na esfera do mercado. É pois irrelevante se o negócio é bom ou mau, já que a fé torna o pensamento imune à realidade.

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