sexta-feira, março 16, 2007

Biocombustível: a mentira conveniente

[publicado no Diário de Aveiro, 16 de Março de 2006]


Durante esta semana o Presidente dos Estados Unidos visitou o Brasil, o Uruguai, a Colômbia, a Guatemala e o México. Com a crescente oposição da América Latina à política externa norte-americana seriam previsíveis declarações improváveis. Podemos ver um Bush de “linguagem revolucionária” como intitulou a Globo a prometer «implementar a “justiça social” para os latino-americanos pobres que lutam para sobreviver, marginalizados pela economia global». A hipocrisia de nada lhe valeu, foi recebido em todos os países com vigorosos protestos.

Contudo, o que me leva a escrever este artigo não é este discurso social-democrata de conveniência, nem tão pouco o facto do Presidente Lula ser escolhido como o primeiro aliado contra o avanço da esquerda na América Latina. O que não posso deixar passar em claro é a tentativa de deificação do acordo celebrado entre EUA e Brasil relativo à produção de bioetanol.

A reportagem televisiva que dava conta do acordo referiu taxativamente que esta aposta na produção de bioetanol iria agradar bastante aos ambientalistas. Nada mais falso! O biocombustível, apesar de ser propagandeado como uma energia limpa e de combate ao aquecimento global, tem graves consequências ambientais e sociais.

O biocombustível é produzido a partir de monoculturas intensivas de plantas (soja, milho, cana-de-açúcar, etc.) para o efeito. Também poderá ser produzido a partir de lixo, nomeadamente óleo alimentar usado, porém esse não é o caso do presente acordo nem tão pouco o caminho que tem sido seguido, por razões estritamente da economia de mercado.

O biocombustível não é isento de emissões de gases de estufa, já que todo o carbono que estas plantas acumulam é expelido para a atmosfera na forma de dióxido de carbono aquando da sua queima. Estamos portanto a inutilizar uma vasta porção de solo que caso contrário estaria a absorver e reter carbono da atmosfera. Aliás, áreas extensas de floresta – no caso Amazónia – são devastadas para o cultivo intensivo destas plantas, que ao final de alguns anos inutilizam o solo agravando o problema do aquecimento global.

Este tipo de biocombustível acarreta um saldo energético negativo, isto é, a sua produção requer mais energia do que a que se obtém. Na contabilidade da propaganda é sonegada a energia dispendida na produção dos pesticidas e fertilizantes (e os seus impactos no solo e água), da manutenção agrícola, da colheita, do transporte e da refinação. Para mais, cada litro de bioetanol produzido consome quatro litros de água, o que agrava aquele que é já um dos principais problemas ambientais do planeta, a escassez de água. A título de exemplo, na questão do transporte envolvido temos que a fábrica de biomassa prevista para o porto de Aveiro irá importar soja do Brasil.

O objectivo do acordo EUA – Brasil passa por transformar o bioetanol numa “commodity”, isto é, numa mercadoria de origem natural produzida em grandes quantidades e uniformizada pelos diferentes produtores e, a breve trecho, com valor determinado em bolsa de valores.

A implementação do mercado de biocombustíveis acarreta graves consequências sociais. A produção em grande escala destas plantas será realizada exclusivamente em países subdesenvolvidos. Aí, o seu solo, que actualmente produz alimentos para a subsistência da população desse país e do mundo, passaria a produzir combustível para o mundo desenvolvido. Com estas plantas e o uso do solo com uma forte oferta na área dos combustíveis, o seu preço e o dos animais que delas se alimentam sobe. O país subdesenvolvido afasta-se da sustentabilidade alimentar, acentuando-se os problemas de pobreza e fome, tudo para que os nossos automóveis circulem.

Portanto, o Presidente norte-americano que recusou assinar o protocolo de Quioto e reduzir as emissões de estufa do seu país, não se converteu à inevitabilidade do aquecimento global que tão laboriosamente tentou negar. George W. Bush está apenas a persistir na defesa do comércio livre (leia-se selvagem): esta é uma energia (leia-se mercadoria) com alto potencial económico, uma vez que nas contas da economia de mercado não entram os seus impactos ambientais e sociais, nem tão pouco a quantidade de água consumida.

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1 Comments:

Blogger Pedro Link said...

O Sr.Bush continua agarrado á bandeira do poder.
Mas para bem de todos nós a maioria dos Americanos já nem o considera honesto nem competente.
A falta de transparência nos acordos comerciais é extremamente hipócrita.
E os "outros" quando vêm isso

sexta-feira, março 16, 2007 4:50:00 da tarde  

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