sexta-feira, junho 15, 2007

A Praça do Peixe

[publicado no Diário de Aveiro, 15 de Junho de 2007]

No domingo foi publicada a notícia de que a Câmara Municipal queria fechar o Mercado José Estêvão, conhecido como Praça do Peixe. Em causa estavam os resultados de um relatório que ditava que o mercado não tinha condições higieno-sanitárias para funcionar. O Vereador responsável pelos mercados declarava que não fazia sentido um terceiro mercado em Aveiro quando se tem dois bons mercados, e que no lugar na Praça do Peixe poderia nascer um espaço cultural não especificado.

Face a estas declarações, o encerramento tem contornos de decisão política: dois mercados são suficientes. Discordo desta visão, já que considero a concentração temática da cidade um erro urbanístico. O aglomerar todas as áreas de comércio (tal como de desporto, lazer e verdes) numa ou duas áreas aparta a cidade, aumenta as distâncias e leva ao aumento da dependência de mobilidade individual.

Entretanto, a meio da semana surgiram novas notícias divergentes: a recusa dos vendedores a rumar para o Mercado de Santiago; a hipótese da transformação da Praça do Peixe num restaurante; a garantia do delegado de saúde em como o mercado apresenta condições, sendo apenas necessárias pequenas obras; e as novas declarações do Vereador Carlos Santos afiançando que não há mudança para já, mas caracterizando essa possibilidade como uma fatalidade e não como uma decisão política.

Não posso deixar de reparar que a atitude do executivo perante este caso é completamente díspar em relação a outros, como é exemplo o antigo Estádio Mário Duarte. O Presidente Élio Maia sempre afirmou querer manter o velho estádio por considerar que faz parte do imaginário aveirense, mesmo sem se saber qual seria a função de um segundo estádio. A Praça do Peixe desempenha uma função e em termos de imaginário refira-se que neste fim-de-semana decorreu aí a representação da venda de peixe como seria realizada no final do século XIX.

O mercado foi recentemente restaurado com obras que custaram 1,5 milhões de euros e que duraram dois anos. Não se pode encerrar este espaço de ânimo leve sem discutir alternativas e soluções envolvendo a população. Espero portanto que no futuro próximo o relatório higieno-sanitário seja tornado público e que a autarquia elabore um documento que aponte o tipo e custo das obras que o mercado necessita para reunir as condições de funcionamento.

O espaço público nas cidades tem dado lugar ao betão e ao automóvel. A cidade é progressivamente retirada ao cidadão. No caso da Praça do Peixe espero que não seja retirada do domínio público. De certo que a existência de mais um restaurante em Aveiro não é nem uma prioridade nem uma mais-valia.

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