sexta-feira, julho 18, 2008

A verdadeira alquimia

[publicado no Diário de Aveiro, 18 de Julho de 2008]

Em Fevereiro , o Northern Rock– um dos maiores bancos britânicos de crédito imobiliário – entrou em colapso. Então, o Banco de Inglaterra emprestou 55 mil milhões de libras (o equivalente a mil libras por cidadão britânico) ao banco em causa. Face à contestação generalizada, o governo britânico viu-se obrigado a nacionalizar o Northern Rock.

Esta semana, duas empresas financeiras norte-americanas dedicadas ao crédito imobiliário (Fannie Mae e Freedie Mac) entraram em colapso. A Administração Bush pediu ao Congresso que aprove uma linha de crédito até 300 mil milhões de dólares (o equivalente a mil dólares por cidadão norte-americano) para salvar estas empresas. Foi ainda pedida autorização para comprar acções destas duas empresas, portanto o Estado declara-se disposto a comprar parte destas empresas praticamente falidas e que mais ninguém no mercado ousaria tocar.

É sabido que o cidadão que por qualquer infortúnio deixe de conseguir pagar as mensalidades do seu crédito ao banco, está desgraçado e o Estado certamente não se mete no assunto. Da mesma forma, o Estado nada faz se qualquer um de nós tiver um pequeno negócio que vá à falência.

O capitalismo é isto mesmo, só é bom para os amigos. Os grandes negócios financeiros são isentos de risco, já que se correr mal, o Estado – todos nós – assume o risco inerente ao investimento. No sistema vigente vigora a privatização do lucro e a nacionalização do prejuízo.

Para mais, o negócio dos bancos é bastante interessante. A sua actividade consiste na produção de dinheiro a partir do nada. Os bancos emprestam aos seus clientes dinheiro que não tem e que não existe. De seguida pedem aos bancos centrais que façam mais dinheiro, sendo que nem é preciso imprimi-lo, basta inserir os números no computador.

Em suma, o dinheiro que os bancos emprestam não tem correspondência com os débitos depositados, nem com nada que possuam. A única garantia de valor do dinheiro é a assinatura do cliente do empréstimo que se compromete a pagar esse valor.

Os bancos são assim um excelente negócio, já que na prática possuem o alvará de produção de dinheiro a partir do nada. Para mais, a quantidade de dinheiro existente controla em muito a inflação e a definição da taxa de juro – os dois eixos da política financeira.

De acordo com a teoria neoliberal, o mercado através da interacção dos indivíduos e na ausência de uma entidade coordenadora do interesse comum, resulta numa determinada ordem como se existisse uma “mão invisível” que os orientasse. Daí que defendem que a economia de mercado deve funcionar sem a interferência do Estado. Porém, os próprios arautos liberais mandam a sua própria teoria às urtigas quando uma instituição financeira está em crise e usam o Estado para a salvar em claro prejuízo de toda a sociedade.

De igual modo, nos casos relatados, os 55 mil milhões de libras e os 300 mil milhões de dólares não existem no momento da decisão, sendo dinheiro que será apenas produzido pelos bancos centrais de propósito para a ocasião.

Da próxima vez que lhe digam que vivemos num mundo onde não há dinheiro para a segurança social, para a acção social, para a saúde, para a educação, pense nos valores pornográficos que o Estado fabrica para salvar empresas financeiras...

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8 Comments:

Anonymous Tárique said...

O nome estão incorrectos. Estás a referir-te ao Northern Rock , e não ao Northern Bank.

sexta-feira, julho 18, 2008 10:25:00 da manhã  
Blogger Nelson Peralta said...

Tárique,

Tens razão. Estava convencido que só havia um "Northern". Vou corrigir as já muitas referências erradas aqui no blogue. Obrigado.

sexta-feira, julho 18, 2008 11:42:00 da manhã  
Blogger JM said...

Para os leitores interessados em introduções rápidas e compreensíveis aos sistema que o Nelson tão bem denuncia, vejam a animação Money as Debt.

sexta-feira, julho 18, 2008 2:03:00 da tarde  
Blogger JM said...

:) Pelo meu comentário anterior, fica-se a perceber que eu leio tudo através do feed: não me tinha apercebido que tens o filme disponível em destaque na tua "TVisão". :)

sexta-feira, julho 18, 2008 2:07:00 da tarde  
Blogger Nelson Peralta said...

JM,

Sim, o "Money as Debt" está já é a exibição da casa :)

O nosso percurso escolar é perfeito, por mais anos que se ande por lá, não há uma única aula sobre o que é o dinheiro, o seu valor ou como funciona o nosso sistema económico.

sexta-feira, julho 18, 2008 3:25:00 da tarde  
Blogger O Comendador said...

Excelente artigo Nelson.
É indecente mas ao mesmo tempo sintomática, a forma como o poder político neo-liberal, trata as questões do grande capital.
O grande paradigma é que esta gente continua a governar o mundo, senão veja-se as consequências da crise nos mercados financeiros imobiliários dos EUA.
O capital virou~se para formas mais apetecíveis de realizar mais-valias : Especulação no mercado do petróleo, nos cereais, etc. O pior é que isto trespassa-nos globalmente como uma onda.
Um abraço

quarta-feira, julho 23, 2008 12:54:00 da manhã  
Blogger Sinn-Klyss said...

Há três olhinhos cândidos e brilhosinhos que nos suscitam cuidado: o olhinho do pombo, o olhinho do cão, e o olhinho do rato. Porque um fica no sótão, outro fica no porão, e outro no meio, dentro da casa. Um vem por sobre nossa cabeça, outro vem por sob nossos pés, e outro por meio de nossas mãos. Dos três as fezes são-nos extremamente nocivas; e por elas nos viciamos sem que tenhamos mínima percepção disso.
Todos os três dissimulam sua proximidade: um se vale de nossa miséria psicológica, outro de nossa miséria social, e outro da nossa miséria emocional.
Estes três estão nos símbolos do submundo da religião, e os “espertos” do mundo tecem profundamente tremendo arrasto conhecendo muito bem o descuido e a fraqueza que temos com a candura dos olhinhos que eles têm.
Numa geração que com muita sorte viermos despontar ficaremos abismados quando virmos como éramos engambelados e escravizados. Sentiremos vergonha, muita vergonha, e isso nos fará não esquecermos nunca do que vivemos.
Tomara, tomara que tenhamos chance.
Haddammann Veron Sinn-Klyss

domingo, julho 27, 2008 3:18:00 da tarde  
Blogger Sinn-Klyss said...

Este comentário tá vindo pra cá pela similar desfaçatez que está assolando vários países, refere-se ao fato da Petrobrás(BRasil)estar sob a tutela do Nazi-teo-pulhítico socialismo da nova ordem de CANALHAS que vão destruir nossa Civilização se não forem detidos:
É patente (melhor, patético) como destrambelha-se a soberba das máfias tutoriais que se apoderaram de vez do Brasil.
Pergunta a) Porque o inclinamento da plataforma no RJ esteve tão perto do "irsso num é bão pú Básil"?;
Pergunta b) Porque um jornalista citando um escrachado fato suficiente pra 'estouro da bôca' do governo, foi instado a 'sei eu fosse vc num farlava irsso'?
As perguntas c, d, ... z, vão ficar pra outras; apenas é bom que se saiba que a Rede Blogueira não é um grupo pequeno de meninas que se destrói facilmente com TODO o Podrer do Socialismo-Pulhítico Divino.
"Desde a invasão intempestiva do brio civil na Rede Bloguista contrafazendo a estória de que 80% dos brasileiros estão abestalhados por uma mídia tutelada sob a vigente teo-pulhítica até à depredatória intromissão nociva na Língua Brasileira, e, até aos posts-denúncias do Pensador Haddammann que resultou em atenção ao site Sintrascoopa, realçando milhares de ações e clicks,de grandes e pequenos, mostrando que muitos (absortos em encantos e enganos e distrações arranjadas às pressas e/ou 'bem' forjadas) não vêem uma farsa gritante, e outros muitos vêem; desde esses convulsivos acontecimentos que estão prestes a revirar a Sociedade do pé à cabeça; está todo o Sistema sentindo o engulho do que o mata sem pena a si mesmo. É um momento de transição da Evolução; a "esperteza" sabe que o tempo terminou. Nós, brasileiros, entre tantos povos, conseguiremos desfazer os conluios de máfias que tomaram o poder, empresas, e educação, em nosso País."
À disposição dos pulhas está aí um e-mail pra intrometerem um pouco mais seu devasso terrorismo: haddammann@bol.com.br.
Apenas ressalto que maior riqueza do que a da Petrobrás é a que estão ávidos para obter (mais o que vão morder vai ser meio amargoso); esses canalhas estão impedindo o que é imprescindível à todas nossas iniciativas eco-ambientais.
Em tempo: Alguém acaba de dizer que enquanto pessoas viajam como burros socados dentro de conduções esfrangueladas estão aí 'lindas' kombis 'doadas' para tão 'pobrezinhas' igrejas para desfilar prá lá e pra cá ostentando o 'bem' dos 'caridosos escorados' pelos bairros miseráveis. Tudo lama lá!
Apenas para lembrar: Talvez o Super-Homem das Américas sempre tenha sido a Imprensa; e a fibra dos repórteres não se acanha e nem se acovarda (Watergate); Tim Lopes viu além da ‘transparência’. E nós TODOS BRASILEIROS estamos vendo o correrio dos fantochinhos pra ‘debaixo das asas’ da Vadia Parasita e suas crias garrada em Brasília.

sábado, junho 13, 2009 2:14:00 da tarde  

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