segunda-feira, novembro 16, 2009

O comunista legalista


Filipe Guerra considera, «no que toca ao negócio dos terrenos, que ou se encontram irregularidades jurídicas no negócio, ou então tudo o que se tem falado não passa de “fogo de artifício”».

Temos de facto opiniões diferentes sobre o negócio madrugador das piscinas, como se pode perceber pelo que tenho escrito por aqui. Contudo, mais desconcertante que a posição do Filipe é a sua fundamentação.

Flipe Guerra considera, publicamente já pela segunda vez, que a única questão digna de crítica no negócio será a sua legalidade ou ilegalidade. Não entremos por ora na questão legal. É no mínimo estranho esta posição vinda de um comunista. Primeiro, porque a lei é a imposição à sociedade do sistema vigente. É exactamente pelo facto da lei não ser neutra e ser a expressão da leitura ideológica da sociedade que leva o Bloco de Esquerda e PCP a apresentam leis e alterações legislativas noutro sentido.

Chegamos assim ao segundo ponto: em Portugal, o enriquecimento ilícito ainda não é crime. Estamos portanto perante um quadro legal recuado no que respeita ao combate à corrupção.

Em terceiro, e contrariamente às fantasias neoliberais, os eleitos não são meros gestores mas sim políticos. Cabe-lhes aplicar as escolhas sobre o nosso modelo de organização em sociedade. Se discordamos dessas escolhas cabe-nos a proposta alternativa e a crítica.

Posto isto, e de acordo com o argumento legalista, a privatização da EDP, da Galp e demais serviços públicos seria inatacável já que é conforme a lei. O capitalismo nada mais é que roubo legalizado pelo que nada é mais inútil que um comunista legalista.

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sexta-feira, setembro 12, 2008

O país d'«a minha pilinha é maior que a tua»

Nelson Évora: 17,28 m

Anda para aí uma grande comoção com a colocação em Aveiro da sede da nova região de turismo. Dois comentários [1, 2] entenderam mesmo que eu devia ter aqui opinião publicada sobre o assunto, não me apetece, não me dá gozo, considero bastante mais interessante a análise às reacções.

A história não é nova e tem-se repetido: imensos contentes saem à rua a vangloriar o governador civil pelo feito, já que apenas a sua influência o tornou possível, ao mesmo tempo que acusam o Presidente da Câmara de se colar ao feito. O alcaide é mais avantajado que o xerife, dizem.

Este é o retrato do país que temos. O país é desenhado pelos pequenos interesses e pelo tamanho da influência dos alcaides e xerifes, não por uma lógica de coesão territorial e de melhor servir a população como um todo. E quem o desenha assim não tem o mínimo pejo em o anunciar aos quatro ventos. Para mais, ninguém se envergonha quando dá a entender que a fixação de determinada sede em dado local o beneficia em detrimento dos outros, como se não fosse suposto o organismo em questão não discriminar parte da área que serve e como se um dos factores que condiciona a sua localização não fosse exactamente o potenciar esse benefício mútuo.

Tenho a consciência da impopularidade do que estou a escrever, como aliás se comprova com a escolha de Aveiro para receber um estádio do Euro 2004 . Não houve um único deputado municipal que tenha votado contra o estádio, não sendo raro ouvir «sê realista*, naquele momento ninguém podia votar contra a vinda de uma infra-estrutura daquelas para Aveiro». Outro exemplo são as sucessivas vitórias autárquicas do orçamento queijo limiano.

Esta é a política que temos. Vivemos num mundo que já sabe todas as respostas, onde nem em programas políticos há discussão ideológica, apenas de discute a gestão do dia seguinte. Não se discute o turismo, discute-se a sede; não se discute a economia, discute-se a direcção regional. As opções são todas as mesmas, a receita é igual, é uma questão de quem a faz melhor, daí a magnânime importância de andar de régua na mão: é a única coisa distintiva. A malta continua pobre e explorada, mas tal qual no Civilization tem agora uma pequena maravilha na terra para alegrar a malta.

* [Gosto daquilo a que chamam realismo: a receita única. Ainda a despropósito, por aqui se vê que os políticos do poder não estão disponíveis para votos impopulares e difíceis, a não ser que seja em nome da economia (vulgo apertar o cinto).]

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