quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Multiculturalismo e conflitualidade social

Publicado n'A Comuna



A regra continua sólida. A direita só fala das culturas e de imigração quando discute segurança. David Cameron decidiu partilhar com a Europa que o multiculturalismo falhou. Não só falhou como deixou os jovens muçulmanos vulneráveis ao radicalismo.

As guerras que o “ocidente” exportou com base na mentira, as suas sucessivas violações dos direitos humanos, o recurso à tortura, Guantanamo, nada disto merece sequer uma menção honrosa. Para o primeiro-ministro inglês, o radicalismo islâmico e o terrorismo devem-se às políticas de integração e não às políticas de terrorismo de estado contra os povos.

Na Conferência de Segurança de Munique defendeu que os imigrantes devem aprender a falar inglês e que as escola têm que ensinar “a cultura comum do país”. Nunca se viu Cameron tão preocupado com a escola e com a sua função social. Na Inglaterra aumentou o valor das propinas de 3.290 libras para valores que podem atingir 9.000 libras. Não lhe é reconhecida nenhuma paixão, ainda que platónica, pela educação. Contudo, vê na escola o alicerce para uma das suas políticas basilares: a uniformização cultural. Cameron não deixa dúvidas, para si, a escola pública é um aparelho de dominação ideológica e cultural.

Considerar que o multiculturalismo falhou parte de um engano e é uma ideia perigosa. É errado que a Europa, ou no caso cada um dos seus estados-membros, tenha apenas uma cultura homogénea e hegemónica. A diversidade cultural é a própria raiz da Europa. Mas a ideia é perigosa. Primeiro, ao longo dos séculos, a identidade cultural dos povos da Europa foi moldada a ferro e fogo, por deportações, tortura e assassínios em massa. Não é certamente isto que queremos replicar. Em segundo, que cultura definimos como a europeia ou britânica? Essa imposição cultural será sempre a das exclusões. A exclusão dos imigrantes, assim como a exclusão de milhões de cidadãos autóctones.

O nome e os motivos atribuídos a esta nova política de exclusão são elucidativos: “liberalismo musculado”, para reforçar os valores da igualdade e da lei junto dos elementos da sociedade. Nada de novo, este é o rosto da nova direita no continente. A imposição cultural e ideológica sob a capa da liberdade, a imposição das desigualdades sob a máscara da igualdade. É a agenda da velha direita de botas, mas agora com discurso de pantufas. Berlusconi e Sarkosy não eram meros excêntricos, foram a semente da nova direita que germina.

Mas o ponto mais relevante é o momento em que surge esta comunicação do “nós e os outros”. O torie tenta construir uma identidade britânica e europeia como se o confronto social estivesse guiado e se definisse pelo conflito entre culturas. A realidade contesta. A nível nacional, Cameron tem em curso um dos mais severos planos de austeridade da Europa. As contradições acentuam-se, a desigualdade social agrava-se, o protesto popular está na rua. Numa contexto diferente, é certo, também os povos do Egipto e da Tunísia – os “outros” – estão nas ruas. No Reino Unido, no Egipto, em Portugal e na Tunísia a luta é pela democracia, pelo direito dos povos escolherem o seu futuro, e por melhores condições de vida. É a sua condição de classe explorada que os coloca nas ruas.

Não é apenas mais fácil, é mesmo conveniente que Cameron diga que o multiculturalismo falhou. Dá-lhe o alibi para o neo-liberalismo. É em seu proveito que relata um mundo visto pela lente do choque entre civilizações. Tenta assim esconder a luta de classes.

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quarta-feira, novembro 10, 2010

Ainda sou do tempo em que os desmentidos serviam para, imagine-se, desmentir!

Descubra as diferenças.
Teatro Aveirense: o díptico antes e depois do comunicado do Bloco

O Teatro Aveirense tem sido uma porta giratória para novos directores artísticos. Nenhum se aguenta muito tempo e agora, com as novas nomeações, o Teatro arrisca-se a ficar com tantos administradores como técnicos(!!). Esta é apenas a face mais visível da total ausência de estratégia cultural para o Teatro e para o concelho. A democratização da cultura e o acesso à produção cultural não passa por Aveiro.
A situação do Teatro Aveirense tem-se tornado calamitosa. Primeiro pela sucessiva redução das verbas do contrato-programa entre a autarquia e o Teatro e, como se isto não bastasse, a Câmara nem sequer o cumpre.
Há ainda a somar vários atropelos de gestão, alguns dos quais gritantes. Face a tudo isto, o Bloco colocou uma pergunta ao Ministério da Cultura descrevendo muitos dos factos. A Vereadora da Cultura e Presidente do Concelho de Administração do Teatro Aveirense, Maria da Luz Nolasco, foi lesta e lançou um comunicado de resposta nesse mesmo dia.
No seu comunicado, Maria da Luz Nolasco começa com uma falácia ad hominen e acaba com uma non sequitur. Revela-se uma vereadora com muito latim, mas pouco discernimento. Ao lançar um desmentido que nada desmente e que lança apenas confusão, mostra-se incapaz de assumir as suas escolhas políticas e os resultados que daí derivam. Esta representante dos cidadãos não está disponível para qualquer responsabilização, varre tudo para debaixo do tapete (ou neste caso, para o fosso da orquestra, ao calor e encostadinhos uns aos outros, ou eventualmente com esferovite pelo meio...). Não há nada pior em quem exerce cargos públicos do que considerar-se inimputável. A verdade é mero instrumento ao serviço do seu poder.
A Vereadora bem pode continuar a classificar o Bloco de "injurioso", a responder a números de 2009 com os de 2010, a remeter a maior parte das questões ao silêncio, e até a aborrecer crianças. Não é isso que muda a realidade que continua dramática. A acção do Bloco teve pelo menos um pequeno efeito: como se vê nas fotos acima, o dítpico que estava montado ao contrário foi imediatamente corrigido após o comunicado. Esperemos que esta acção e, acima de tudo, muitas outras da população contrariem o atavismo a que a coligação PSD/CDS remete Aveiro.
Já que se revelou tão ávida em falar sobre o assunto, bem que Maria da Luz Nolasco podia ter esclarecido os casos apresentados e já agora, responder a novas questões... Relativamente às visitas do Ministério da Cultura ao Teatro nos últimos meses, foi-lhes dado acesso às obras de arte contemporânea que esse ministério cedeu e que nunca foram expostas condignamente? A Vereadora garante o bom estado das mesmas? As aquisições de novas obras de arte inscrevem-se num plano e projecto coerente? Espero sinceramente que Maria da Luz Nolasco não fique lembrada como a vereadora que levou Aveiro a perder a colecção de arte contemporânea!

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quarta-feira, março 26, 2008

As salas de espectáculo da região

Hoje no Diário de Aveiro: O Centro Cultural de Ílhavo abre a 24 de Março. Como se deve processar a relação das várias salas de espectáculo da região, como Aveiro, Ílhavo ou Estarreja? Existirão salas a mais?

A questão mais relevante não será se há salas a mais, mas sim se há público a menos e porquê. Estas salas tem valências e potencialidades diferentes, é necessário analisar o que leva a que estejam continuamente vazias.

Por exemplo, no caso do Teatro Aveirense, a política cultural não regista continuidade e é feita de rupturas. Não há a criação de hábitos sistemáticos, nem há uma calendarização coerente para uma determinada área cultural (teatro, dança, cinema, ...). O Teatro Aveirense é hoje uma sala sem identidade definida e sem estratégia de fidelização de público. O festival Sons Em Trânsito era a expressão de uma política que alargou os horizontes do Teatro, ao fidelizar e ir buscar público bem longe, tendo mesmo chegado a desenvolver parcerias com outras cidades. Este festival tornou o Teatro Aveirense numa referência nacional em músicas do mundo. O Festival Voz de Mulher tinha também potencial comprovado, mas veremos que seguimento lhe será dado.

Em Aveiro, a cidade e a universidade vivem em dois mundos separados, não há qualquer parceria na área cultural e de programação entre ambas. Não há nenhuma estratégia para atrair o imenso público da comunidade universitária para as salas de espectáculo do município.

A existência destas três salas de espectáculo geograficamente próximas deveria permitir o estabelecimento de parcerias e trabalho conjunto. Uma gestão envolvendo as várias salas permitiria o desenvolvimento de produção própria e local, algo que neste momento não existe.

Contudo, a avaliar por outras áreas parece-me que a relação entre as várias salas de espectáculo da região, pura e simplesmente não se vai processar. Tal como em tudo o resto, serão salas estanques no seu meio e concorrentes entre si. Não deixa de ser curioso que estes três município, mesmo governados pelo mesmo partido, não se consigam entender e implementar políticas estruturantes e intermunicipais.

Aliás, mesmo dentro do próprio concelho não existe uma política integrada para as diferentes salas de espectáculos. O Teatro Aveirense e o Centro Cultural e de Congressos, assim como as restantes salas do concelho, são espaços sem qualquer visão conjunta. Para mais, o Centro Cultural e de Congressos na prática já não existe para a cultura.

Estas diversas salas da região terão que apresentar uma programação singular e diversificada para atingir todos os públicos, para além de definirem uma identidade própria e diferenciadora.

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segunda-feira, novembro 12, 2007

Pornex Aveirense


No início dos anos 80, à meia-noite de sábado, o Cine-Teatro Aveirense tinha a sua concorrida sessão de cinema porno. Foi o que descobri ao ler a descrição dos acontecimentos na Farinha Amparo, cuja leitura recomendo vivamente.
Portanto, na tradição da cidade e do Aveirense, encontramos fundamento para a reedição de uma hiperdada Pornex.

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domingo, novembro 11, 2007

Política cultural da CMA

Esta semana n'O Aveiro: A política cultural da CMA tem correspondido às expectativas dos Aveirenses?

Não estou plenamente convencido que a Câmara Municipal tenha uma política cultural estruturada, estratégica e integrada. Contudo, pelas palavras do próprio Presidente da autarquia, sei que há Vereadores com opiniões pessoais sobre o assunto.

A cultura não deve ser deixada exclusivamente à mercê do mercado. A autarquia deve integrar redes nacionais de apoio à criação e circulação cultural, tal como apoiar o ensino das artes e pelas artes democratizando o acesso ao conhecimento e contribuindo para uma cidadania plena.

Aveiro é uma capital de distrito com bastante habitantes e tem uma universidade com produção cultural, contudo todas estas potencialidades são desaproveitadas e não existe nenhum incentivo – não monetário – à criação e dinamização cultural. A título de exemplo veja-se o Cinanima que está a decorrer em Espinho ou o que decorre em Avanca, isto para só referri uma área temática.

Em termos de implementação da política cultural da autarquia, o Teatro Aveirense é o instrumento mais relevante. Contudo basta olhar para a sua programação e comparar com a do Cine-Teatro de Estarreja, a Casa das Artes de Famalicão, o Centro Cultural de Vila Flor em Guimarães, entre outros, para nos apercebermos da confrangedora insignificância a que Aveiro foi remetida.

Os objectivos do Teatro Aveirense estão bem estabelecidos através do protocolo com o Instituto das Artes. A questão é qual a estratégia para os atingir? E aqui não vejo nenhuma estratégia política da autarquia. A programação deve reflectir, com base em estratégias (a quantidade, forma, estilo, etc.), sobre os objectivos pretendidos, originando posteriormente um calendário de programação, não o inverso. Preencher um calendário com espectáculos não é estratégia, é apenas preencher um calendário com espectáculos. Veja-se ainda a inutilidade a que está votado o Centro Cultural e de Congressos.

Felizmente em Aveiro há vários grupos que, mesmo perante a apatia camarária, fazem dinamização da actividade cultural.

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quinta-feira, março 22, 2007

O público do Teatro Aveirense

«(...) os estudantes estão afastados do Teatro Aveirense (TA). Apesar da forte implantação da Universidade de Aveiro, apenas 13% dos inquiridos eram estudantes. Este resultado, segundo Maria da Luz Nolasco, directora geral do TA, “contrasta com o que, em geral, registam os dados conhecidos acercas dos públicos culturais, entre os quais os estudantes são uma presença habitual e muito significativa”.»

Sempre achei e continuo a achar que existe um forte divórcio entre a Universidade e a cidade. Não é de todo um assunto consensual, conheço quem partilha da minha visão e quem pensa exactamente o oposto.

Considero que apesar de existir uma grande comunidade de estudantes universitários a residir em Aveiro, não se relacionam com a cidade: tem os seus próprios espaços, horários e hábitos. Tanto a universidade como a cidade tem oferta cultural, mas os públicos são como água e azeite. A única zona da cidade que faz parte da universidade é a Praça do Peixe. Há que perceber as razões - eu tenho as minhas teorias - e implementar práticas de integração das duas comunidades, todos tem a ganhar.

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