quarta-feira, abril 20, 2011

O beija-mão

Publicado no esquerda.net



Depois do governo PS chegou a vez de PSD e CDS irem ao beija-mão à troika FMI/BCE/CE. Uma encenação mediática que serve na perfeição os interesses dos partidos do arco da austeridade. Em plena campanha eleitoral a trindade PS/PSD/CDS vivia o drama de concordar no essencial das condições impostas e a tragédia de ter que “negociar” e se entender junta e publicamente sobre essas condições. De imediato, Teixeira dos Santos rejeitou este cenário e insistiu que cabia à Comissão Europeia negociar com a oposição portuguesa. Se a Comissão retorquiu que essa era tarefa do governo, a encenação de ontem corresponde que nem uma luva a esse pedido.


No final da ronda de reuniões, Paulo Portas entusiasmou-se e declarou que “não falar com as instituições a quem estamos a pedir dinheiro não é uma posição construtiva”. Nesta pequena e singela frase condensou todo um programa político.


Afinal, para quem Portas, Passos e Sócrates pedem dinheiro? O próprio director do Fundo Monetário Internacional já veio dizer que o problema de Portugal não é tanto a dívida pública mas sim o financiamento dos bancos e a dívida privada. Entretanto, o Ministro das Finanças esclareceu que, no âmbito do programa FMI, o Estado estará disponível para nacionalizar parcialmente bancos necessitados de dinheiro. Não há dúvidas, o empréstimo vem resolver os problemas de liquidez da banca, que brincou e lucrou com juros especulativos sobre a dívida soberana do país até ordenar ao governo que chamasse o FMI.


Mas também da dívida pública se fazem as dificuldades. E aqui, de facto, Portas pode-se gabar de ter tido uma posição construtiva. Só a factura dos dois submarinos ultrapassa os mil milhões e como se não bastasse aceitou pagar 30 milhões a mais, tipo gorjeta! Mas neste campeonato, PS e PSD também apresentam os seus trunfos. Cinco mil milhões na nacionalização do BPN, 48 mil milhões de despesa acumulada com as parcerias público-privadas. No seu conceito de justiça fiscal, a banca paga 4% de IRC e uma mercearia de bairro 25%. Sabemos bem o que significa quando nos falam dos três partidos ?responsáveis?: são as suas escolhas políticas e os devaneios da elite financeira que estamos a pagar.


É natural que a troika que nos tem governado reúna com a troika monetária: é ela que está a redigir o seu programa eleitoral. Não é negociação, é o ensaio da coreografia para assinar o empréstimo do gamanço. A acontecer, recebemos 80 mil milhões de euros mas não vemos a cor do dinheiro. Ao invés ficamos com um país mais pobre, mais desigual e mais injusto. Esta é uma “ajuda” que empurra o país para a recessão e o desemprego, que corta as pensões e os apoios sociais, que aumenta o IVA, o preço da habitação e dos medicamentos, que privatiza e nos faz pagar mais pelos serviços públicos. Em suma, coloca quem depende do trabalho a pagar a crise em proveito de quem a provocou e sempre com ela lucrou: o capital financeiro.


A troika PS/PSD/CDS candidata-se ao cargo de regente do FMI. A esquerda candidata-se para um governo democrático que sirva os interesses da população. A esquerda rejeita esta “ajuda” de maçã envenenada. Não negoceia as condições daquilo que rejeita, apresenta alternativas. Não baila ao sabor das suas trovas, pede uma auditoria à dívida pública e privada para saber o que nos querem meter a pagar e a quem. Não escolhe entre o gamançozinho e o gamançozão, responsabiliza e pede contas a quem de direito.

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segunda-feira, março 02, 2009

A esquerda está bem viva nas ruas

Milão, Fevereiro 2009

Como o cartaz mostra, no sábado houve uma manifestação nacional contra a lógica securitária e pela auto-gestão e pelo espaço social. Infelizmente já não estava por lá!

Siena, Fevereiro 2009

Apesar da esquerda, por responsabilidade própria, não ter eleito um único deputado ou senador nas últimas eleições italianas, os movimentos sociais, os movimentos de esquerda e os movimentos anarquistas continuam como sempre extremamente activos e dinâmicos em Itália.

Milão, Fevereiro 2009

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terça-feira, dezembro 02, 2008

A nova esquerda


Apresentação do livro "A Nova Esquerda - Raízes teóricas e horizonte político" de Celso Cruzeiro, amanhã [quarta-feira] às 21h30 na Universidade de Aveiro, mais informação aqui.

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sábado, setembro 13, 2008

Saída da encruzilhada


Celso Cruzeiro sobre a esquerda

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terça-feira, abril 15, 2008

O capitalismo comeu a esquerda italiana de cebolada


La Sinistra l'Arcobaleno (A Esquerda Arco-Íris) é uma coligação criada para estas eleições italianas que engloba a Refundação Comunista, a Federação dos Verdes, o Partido dos Comunistas Italianos e a Esquerda Democrática (SD).

Antes das eleições de ontem, estes quatro partidos dispunham de 94 deputados (total de 10,2% mais a SD que nunca foi a votos) e 47 senadores (11,6% + SD).

Nestas eleições não foi encontrado nenhum pote de ouro no fim do arco-íris, foi o descalabrado: zero deputados (3,1%) e zero senadores (3,2%). Toda a esquerda italiana ficou, pela primeira vez, sem representação parlamentar, em parte devido à batota que é o sistema eleitoral criado por Berlusconni, mas acima de tudo por responsabilidade própria e pela enorme descida eleitoral.

Estes partidos estavam coligados no Governo de Prodi, defendendo pela força do poder, a intervenção da NATO no Afeganistão e a política de Prodi. Pela via da coligação de poder, que contribuiu a esquerda para a melhoria da vida dos italianos? Que avanço civilizacional obteve? Ficou-se mais perto da transformação da sociedade e da derrota do capitalismo?

O voto dos cidadãos italianos exprimiu a utilidade da esquerda bengala do poder dos partidos ditos "social-democratas" com agenda neoliberal (PS e equivalentes europeus). O resultado? A esquerda esteve no poder a imprimir as políticas do capitalismo. A esquerda divorciou-se da sua base de apoio social. A esquerda permitiu a vitória a Berlusconi. A esquerda parlamentar italiana morreu, continua viva nas ruas e haverá de ressuscitar.

O objectivo é a transformação da sociedade, pelo que alcançar o poder é um meio e nunca o fim em si. O poder só é útil se permitir imprimir a mudança ou deixar-nos mais perto dela. O poder bengala é a negação daquilo que é a esquerda.

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quarta-feira, agosto 01, 2007

A sigla PL já estará ocupada!?

A ler a entrevista à Visão de António Arnaut [fundador e militante número 4 do PS, considerado o pai do Sistema Nacional de Saúde (o José Cid dirá já que é a mãe)] à revista Visão da semana passada. Para além de revelar que o PS vendeu o lugar de deputado a um tipo, sobre o seu partido diz-nos:

«A continuar assim não pode chamar-se socialista, tem de mudar de nome.»

«Sempre fui moderado no PS. Hoje estou na extrema-esquerda e sou o mesmo! O partido desviou-se tanto para a direita que, porventura, até estarei quase a sair [risos]...»

«Não há marcas de esquerda neste Governo.»

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sexta-feira, julho 13, 2007

O ambiente: a esquerda, a direita e as misses

[publicado no Diário de Aveiro, 13 de Julho de 2007]


A defesa do ambiente e o combate ao aquecimento global tornaram-se temas centrais na nossa sociedade. Como tal hoje estão presentes no discurso de todos os políticos.

Contudo nem sempre foi assim, durante vários anos, e apesar das evidências científicas, foram muitos os que negaram a existência do aquecimento global. À cabeça George W. Bush que se recusou a assinar o tratado de Quioto, mas não foi o único e ainda hoje muitos ideologos liberais recusam liminarmente que o aquecimento global seja provocado pela acção humana. A evidência do aquecimento global mostra que o modelo em que vivemos é completamente insustentável, porém quem tão minuciosamente desenvolveu o modelo jamais poderá consentir o seu colapso.

No modelo vigente pretende-se passar a ideia de que a revolução ambiental passa por trocar lâmpadas por outras económicas e apagar a luzinha vermelha dos televisores. Podemos assim manter o nosso modo e estilo de vida que tudo se resolverá, e com estes actos apaziguamos a consciência.

A noção de sustentabilidade do capitalismo assenta somente no presente, fazendo-se escolhas insustentáveis na esperança de que no futuro a técnica resolva os problemas hoje criados.

Os defensores do modelo vigente apenas pretendem operar as pequenas alterações para que tudo se mantenha igual. Existe um problema energético, portanto propõem novas formas de energia quer seja a nuclear ou a falsa energia verde dos agro-biocombustíveis. Contudo, a redução substancial não é opção já que isso implicaria a alteração do modelo de consumo e produção em que se baseia a nossa sociedade. A alteração da forma de consumo, mas a sua manutenção em alta. A esperança na técnica futura.

Apesar da declaração de boas intenções de todos e da proclamada preocupação ambiental, o que diferencia a visão da esquerda socialista?

O nosso estilo de vida é absolutamente insustentável como o aquecimento global, a destruição de habitats, a extinção acelerada de espécies, a redução de água potável, a poluição global demonstram. É portanto necessário sair de um modelo de consumismo exacerbado imprimido pelas necessidades de produção e de geração de lucro.

Uma das questões centrais é o paradigma energético. Actualmente a energia é produzida de forma centralizada por um número muito limitado de empresas que a distribuem pela população gerando um imenso lucro desta actividade. A produção de massiva de energia - de forma concentrada, num ponto distante, por processos gigantescos e o seu transporte para cada casa - é uma excelente forma de gerar lucros, mas uma péssima de produzir energia.

A alteração do paradigma energético é essencial. A produção deve começar na casa de cada um, de forma diversificada, e o excedente inserido na rede nacional. De momento esta prática é bastante dificultada e mal remunerada.

Para além da questão da produção existe o consumo energético que tem que ser reduzido substancialmente. Este ponto, para além da redução da produção-consumo, passa necessariamente pela aposta séria no transporte público e num ordenamento do território que favoreça a mobilidade sustentável.

O rumo traçado esgota os recursos do planeta e torna-o inabitável. São necessárias medidas que, mais que paliativas, tornem sustentável e com plena qualidade de vida a nossa existência.

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