quarta-feira, abril 07, 2010

O cowboy de sofá




O João Oliveira do alto da sua sapiência desafia-nos a reflectir "sobre se estas mortes são ou não razoáveis". Estou certo de que as vítimas inocentes e as suas famílias ficarão bem mais tranquilas se considerarmos estas mortes "razoáveis"! JMO dá o seu veredicto: "[d]epois de ver o filme, entendo perfeitamente que tenham sido mortes colaterais", é este o ponto de partida para a sua reflexão idiota.

Interpretação freestyler

JMO é dos duros, "[p]odiam não ter morrido mas a interpretação dos soldados no helicóptero era perfeitamente, na minha opinião, legítima". Não o incomoda portanto que tenham aberto fogo sobre quem não tinha qualquer arma ou disparou qualquer tiro; que tenham aberto fogo sobre quem recolhia um ferido; que veículos passem por cima dos cadáveres; que as crianças feridas tenham sido desencaminhadas de um hospital americano e colocadas nas mãos da polícia iraquiana e enviadas à sua sorte para a espera num hospital iraquiano sem qualquer garantia; que após o acontecimento as altas patentes norte-americanas tenham mentido deliberadamente para esconder o incidente; que o site que prestou o serviço público de divulgar este vídeo seja agora, e por esse motivo, considerado como um perigo para a segurança nacional pelo Pentágono.

Se com a interpretação acima já desconfiávamos, ao afirmar que nesta guerra "não se distingue muito bem o inimigo...", JMO declara o seu lado da trincheira e, mais importante, retrata-nos involuntariamente a natureza imperialista desta guerra: o seu inimigo é em potência todo um povo.

As "regras" da guerra

Mas a astúcia de JMO vai mais longe, "[n]ão queiram seguir as convenções normais do dia a dia mas sim as "regras" da guerra". Sim, de facto como há pessoas como o JMO é preciso prevenir e a guerra tem regras, que dizem por exemplo que os feridos que se arrastam no chão não podem ser abatidos e que deve ser garantido tratamento às crianças feridas.

JMO está confortável, este foi apenas mais um aborrecido dia de chacina de inocentes: "[n]a minha leitura, isto apenas mostra o dia a dia da guerra e de como as armas estão mais eficazes". Aliás, este vídeo mostra bem a eficácia das armas sobre inocentes desarmados, mas JMO não se deixa impressionar e prossegue "[p]orque pensem: se este tipo de armas não estivesse possível, quantos casos de verdadeiros inocentes não estaríamos agora a criticar". Este tipo de armas está disponível e matou inocentes, mas JMO não se deixa que o seu raciocínio seja perturbado pela realidade.


He-Man, ou como havia guerra antes do capitalismo

Como a realidade dos factos não lhe interessa, JMO saca do bolso as suas referências históricas: "não se esqueçam que antigamente matava-se primeiro (ou napalm neles) e depois via-se quem era os inocentes". Aqui o nosso pistoleiro de algibeira volta a declarar o seu lado, não apenas se reportando ao presente mas deixando bem claro que se há tipos que são do Sporting de Braga desde pequeninos, JMO ainda não era nascido e já estava do lado dos cowboys. Mas a sua Histórica de albibeira não apaga os factos. É exactamente a existência destas armas que facilita e potencia a morte de civis, quer por factores tecnológicos quer por motivos psicológicos. Ao contrário da tecnologia bélica que acompanhou a maior parte da História da Humanidade, nos últimos séculos tornou-se possível matar à distância permitindo enganos (ou desejos) técnicos, mas também desumanizar a morte, torna-la invisível e conferir-lhe ainda um carácter quase lúdico.


Os videogames também tem armas eficazes

"Analisem as razões primeiro, as razões. Estamos a falar dos arredores de Bagdade, há três anos". Pois analisemos as razões primeiro, reportando-nos ainda às regras da guerra referidas por JMO. De facto, estes militares e toda a força cowboy e aliada invadiu o Iraque contra o direito internacional, usando uma mentira como justificação para essa violação da lei.

"Não julgue-mos os militares" (escreve-se sem hífen). Os que cometeram os actos no filme - e outros similares - devem ser claramente julgados, não um julgamento moral como parece ser sugerido, mas sim em tribunal próprio para o efeito. Mas de facto, a maior parte dos soldados cowboys são filhos de trabalhadores que também se viram despojados do seu próprio corpo e, sem outra opção, foram ganhar uns tostões para o exército para que a classe dirigente e dominante se deleite nos milhões gerados pela apropriação dos recursos naturais da Mesopotâmia. A estes, que são donos do sistema, ninguém senta no banco dos réus.

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segunda-feira, março 23, 2009

Retrato de guerra


Esta t-shirt virou moda entre soldados israelitas nos quarteis, mostrando uma mulher árabe grávida sob um alvo com a inscrição "1 tiro 2 mortes" [via Arrastão]. Hoje as Nações Unidas revelam que os soldados israelitas utilizaram uma criança palestiniana de 11 anos como escudo humano.

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quinta-feira, janeiro 22, 2009

Água, um bem essencial à vida


Excertos de «Uma contribuição da delegação da Santa Fé na ocasião do Terceiro Fórum Mundial da Água (Kyoto, 16-23 Março 2003)»:

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terça-feira, janeiro 20, 2009

Xenofobia em forma de regulamento


Xenofobia em forma de regulamento, por dois motivos: i) apesar de todos os cidadão terem os mesmos deveres, passam a existir cidadãos de primeira e de segunda com direitos diferentes; ii) a ideia que este regulamento passa é a de que não podemos confiar a nossa segurança a estrangeiros. Este segundo ponto é ele próprio gerador de insegurança já que aumenta a exclusão social e a propagação da ideia de que no que respeita à segurança devemos desconfiar dos estrangeiros.

Eu não necessito de nenhuma lei nem de nenhum regulamento para me definir a mim próprio. Considero que qualquer cidadão em situação de legalidade deve poder usufruir dos mesmos direitos, incluido o de ser guarda-nocturno, independentemente da sua nacionalidade.

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domingo, janeiro 11, 2009

Nova cultura de tarifas

sábado, janeiro 10, 2009

Água: um negócio ou um direito?

Publicado n'A Comuna


As autarquias - limitadas e justificando-se com as escolhas económicas que fizeram no passado e que ditaram o empobrecimento colectivo e o endividamento municipal - avançam com mais uma política económica no mesmo sentido: a concessão da rede de abastecimento público de água. Trata-se de um negócio altamente desejado pelo capital, isento de risco e com o investimento (a rede) já realizado.

A concessão deste negócio é já de si injusta, ilegítima e injustificada uma vez que a água existe em quantidade limitada – constituindo um monopólio natural – e a sua posse fará com que todos os cidadãos paguem esses direitos de apropriação por um recurso natural que não é produzido nem reproduzível e que na sua essência é um bem público. A privatização da água responde ao derradeiro preceito ideológico neoliberal de que o cidadão não tem qualquer direito, mas sim necessidades que são suprimidas na esfera do mercado.

Um dos argumentos mais repetidos é a da supremacia da gestão privada sobre a pública. Contudo, este mito desfez-se com o actual colapso da economia de casino. Mas esta é já de si uma falsa questão: a diferença entre estas gestões é a sua natureza e os seus objectivos antagónicos. A deplecção de água é já bastante notada, como o exemplo de Barcelona (abastecida neste Verão por navios) nos demonstra. Contudo as autarquias pretendem que a gestão da água seja feita na lógica do lucro e não da preservação do recurso e do serviço público.

A privatização da água em Portugal está a dar os primeiros passos, sendo que em vários locais é precisamente o inverso que se passa face a ter-se relevado um mau negócio para as autarquias e para os munícipes. Em Paris a concessão não será renovada ao passo que nos Estados Unidos, devido ao aumento exponencial do custo da água e ao mau serviço prestado, tem surgido vários movimentos de cidadãos pela renacionalização da água, alguns já vitoriosos. É aliás o insuspeito The Wall Street Journal que nos traz estes relatos. Esta opção demonstra assim uma robustez de pensamento a toda a prova e imune à realidade.

Ainda assim, as nossas autarquias demonstram uma cegueira reveladora, não necessitando de confrontar as suas escolhas com a realidade. Demonstram-se ávidas de passar o controlo da água da esfera da democracia para a esfera do mercado, esvaziando-se de competências e de sentido. Pretendem criar mais um negócios rentista que sugará os rendimentos da população apenas para suprimir uma das suas necessidades mais básicas. Já vimos este filme, e não gostamos.

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Em Defesa do Direito à Água

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Os 50 litros de cada dia


Partamos do princípio fundamental que a água para beber, cozinhar, alimentar e tomar banho (água potável, água doméstica, essencial para viver, e cuja quantidade indispensável foi estimada em 50 litros diários por pessoa pela Organização Mundial de Saúde), e a água para a produção agrícola, industrial e actividades terciárias indispensáveis à vida de uma comunidade humana (água para a segurança da existência colectiva, cuja quantidade necessária foi estimada em 1700 metros cúbicos pela OMS e pela FAO), são parte plena do direito fundamental à água, individual e colectivo. Este direito fundamenta­ se no acesso à água para os usos humanos vitais, do qual ninguém, por nenhuma razão, pode ser privado.

O direito à água não é uma questão de escolha. Não é negociável. Não é reversível. É universal, indivisível, imprescritível. Até um condenado à morte tem direito à água. Dependem, portanto, da responsabilidade colectiva, assim como das instituições e autoridades públicas, as condições necessárias (jurídicas, económicas,
financeiras, sociais) para garantir a concretização deste direito para todos, em quantidade e qualidade suficiente para a vida e para a segurança da existência colectiva, segundo as normas internacionais. (...)

A ler o resto do artigo "Os 50 litros de cada dia" do economista Ricardo Petrella. No mesmo sentido, o Bloco de Esquerda apresentou uma proposta na Assembleia Municipal de Aveiro defendendo a água como direito e a adequação do tarifário doméstico a esse princípio, a ser discutida e votada em breve.

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domingo, janeiro 04, 2009

Shministim



Em Israel, vários jovens com pouco menos de 20 anos recusam-se a servir num exército de ocupação. Por serem objectores de consciência são presos pelos seus princípios. Por ser uma violação dos direitos humanos e da lei internacional, uma associação pacifista israelita, Jewish Voice for Peace, lançou uma campanha de solidariedade pela sua libertação: escreve ao Ministro da Defesa israelita.

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sábado, agosto 09, 2008

A estranha normalidade

O JMO considera que estas minhas críticas ao regime Chinês aproveitando a janela mediática aberta pelos Jogos Olímpicos é «abusar das coisas para fazer politiquice». De resto, o PCP está de acordo com o JMO, destacando a «normalidade» com que a China preparou os Jogos e desvalorizando as tentativas de «politização» dos mesmos.

Moral da história, o sr. João está a ver as corridas, não o incomodem e não estraguem a festa com criancinhas acorrentadas a máquinas de costura, com execuções públicas em estádios, com deportações forçadas para se construir pistas de tartan, com a censura, com os presos por delito de opinião, com os campos de concentração...

Esta história não é nova. A abstenção perante a politização do sistema vigente arroga-se como regra. É o conforto de quem considera os direitos humanos um pormenor, porque quer ver as corridas. É a cegueira de quem não vê que, do primeiro ao último dia, estes Jogos são uma encenação política, onde a China aproveita ao máximo para se afirmar como potência económica "aceitável". Tal qual os Jogos de 1936 na Alemanha nazi, com a agravante de que a China é já membro de pleno direito do clube das "democracias ocidentais".

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sexta-feira, agosto 08, 2008

Os Jogos da Vergonha

[Publicado no Diário de Aveiro, 8 de Agosto de 2008]


Hoje iniciam-se os Jogos Olímpicos de Pequim. Se a janela mediática tem estado entreaberta, vai-se abrir em definitivo. Na capital da China e noutras cidades estarão milhares de jornalistas. Há ainda a somar milhares de câmaras de vídeos e de fotografia nas mãos de turistas.

No Ocidente, o capitalismo mudou bastante nos últimos séculos devido à constante luta dos trabalhadores. Passou a ter uma grande componente especulativa com abrandamento – mas não desaparecimento – da componente produtiva.

A globalização do sistema dominante divide o planeta em dois: de um lado o mundo produtor, do outro o mundo consumidor. Só assim se consome sem remorsos. O capitalismo é global, as multinacionais são as mesmas. Apenas operam em negócios diferentes consoante a relação de forças na ocasião. Se na Europa os trabalhadores conquistaram o direito à dignidade, então a produção faz-se onde a escravatura assalariada esteja de boa saúde.

O capitalismo do século XIX está vivo, na China e em bastante outros países em vias de desenvolvimento. Aí reina a escravatura assalariada, trabalhadores sem direitos, sem liberdade de expressão e de pensamento, com uma jornada laboral suicida, trabalho infantil, ausência do direito à escola. A China é hoje o rosto mais cruel do capitalismo.

Jerónimo de Sousa e José Sócrates, o PCP e o Governo, sem esquecer os capitalistas: todos tecem loas à China. O Partido Comunista Português realça "o papel cada vez mais importante da China na comunidade global, os êxitos inegáveis do país e os objectivos socialistas que Pequim se propõe alcançar". José Sócrates considera os "juízos políticos" secundários e que "a China está a mudar a ordem mundial, é uma das mais pujantes economias emergentes". O poder instituído e os capitalistas apoiam…

A China é um gigantesco campo de concentração com máquinas de costura. Contudo, o único caso digno de mediatismo é o tibetano. Esta não é uma escolha inocente. O Tibete é um problema digno e legítimo, mas ao contrário da escravatura laboral, não é um caso que coloque em causa o nosso modo de vida. Um simples relato do que é a vida de quem nos produz os bens de consumo, de marca conceituada ou não, seria suficiente para morder o capitalismo. Porém nem uma grama de notícia.

A censura tem sido uma constante, quer por parte de meios de comunicação chineses quer pelos ocidentais e ainda por empresas de internet ocidentais. O capital não morde nos seus. É por este mesmo motivo que considero estes Jogos da Vergonha uma oportunidade única. Está aberta a janela mediática, é aproveitar.

O atleta negro Jesse Owens envergonhou a Alemanha nazi e os Estados Unidos segregacionistas ao ganhar quatro medalhas de ouros nas Olimpíadas em Berlim de 1936. Nos Jogos Olímpicos no México (1968), Tomie Smith e John Carlos no pódio tomaram uma posição – punho levantado com luva negra, descalças e com contas no pescoço – contra a segregação racial de que eram vítimas nos Estados Unidos. O terceiro atleta no pódio, o australiano Peter Norman, usou um crachá em apoio à causa. Por esta atitude, os dois atletas negros foram expulsos dos Jogos e Peter Norman repreendido. Os três foram ostracizados nos seus países, até às sucessivas homenagens que apenas ocorreram neste século.

O Presidente do Parlamento Europeu, apela a que os atletas denunciem as violações dos direitos humanos. Este senhor do status quo pede para que atletas façam aquilo que a própria União Europeia e o Parlamento Europeu institucionalmente não fazem.

Em 2004 os Jogos regressaram à sua casa da antiguidade. Na modernidade os Jogos vão pela primeira vez à sua casa, onde as grandes marcas que patrocinam os Jogos e os atletas explora e fazem disso o seu lucro.

A janela mediática está aberta, espero que os atletas nos Jogos e os trabalhadores chineses nas ruas digam bem alto que os direitos humanos, a escravatura laboral e a liberdade de expressão não são um pormenor. A queda do regime totalitário e sanguinário e a transformação social na China é a exigência não só de uma força de esquerda progressista, mas da própria modernidade.

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quinta-feira, julho 24, 2008

Diplomacia dos negócios

quarta-feira, junho 18, 2008

A Europa Fortaleza



Depois da União europeia aprovar o aumento da jornada de trabalho de 48 para 60 e 65 horas, eis que a UE aprova outro avanço civilizacional: a Directiva de Retorno.

Com esta nova legislação, os imigrantes ilegais podem ficar detidos até 18 meses, sem que tenham cometido qualquer crime (sendo que há Estados que desejam que a detenção se possa efecutar por tempo indeterminado). A expulsão dos imigrantes pode ser processada para países por onde tenham passado e não apenas para o país de origem/nacionalidade! Desta forma, nenhum problema é resolvido, mas os ilegais passam a ser problema de outro Estado. Menores não acompanhados também podem ser expulsos. Os expulsos ficam proibidos de entrar em território da UE durante 5 anos.

Os imigrantes ilegais, nessa condição, não são criminosos, mas sim vítimas. Basta olhar para a Andaluzia para verificar que a ilegalização da condição de migrante é essencial ao nosso regime económico, permitindo o dumping social e laboral.

É esta a Europa que os senhores do poder querem aprofundar.

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quinta-feira, maio 08, 2008

O PCP está de visita à China

Execuções públicas em estádios, China


E eu a pensar que a China é o país capitalista de maior sucesso, onde é feita a produção global à custa da exploração laboral, autêntica escravatura assalariada! E onde os trabalhadores não tem direito à greve, liberdade de expressão ou reunião. E onde o Estado não hesita em exercer o seu monopólio da violência para garantir que a produção capitalista não seja afectada. E eu a pensar que era assim que o Capital se constituia à custa dos trabalhadores...

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domingo, março 30, 2008

China, paraíso dos trabalhadores

quinta-feira, março 20, 2008

O revolucionário do respeitinho

sexta-feira, dezembro 28, 2007

As duas faces de Benazir Bhutto

sexta-feira, dezembro 21, 2007

A viagem “muito fácil”

[publicado no Diário de Aveiro, 21 de Dezembro de 2007]

A chegada de imigrantes magrebinos à costa espanhola e italiana faz parte do quotidiano. Esta semana, pela primeira vez, a viagem teve como destino fortuito a costa algarvia. Segundo os relatos, a missão do Governo foi desvalorizar o acontecimento ao mesmo tempo que o Ministério da Administração Interna e da Defesa ficaram bastante preocupados e consideraram o incidente grave.
O presidente do Sindicato de Carreira e Investigação e Fiscalização do SEF afirmou que este acontecimento demonstra que a viagem é “viável e muito fácil”. É o discurso do umbigo eurocêntrico, é fácil porque não se quedaram a meio. Duvido que “muito fácil” seja o entendimento dos 23 magrebinos que tomaram a decisão em desespero e empenharam todos os seus haveres para a pagar a viagem, e que a fizeram ao frio, à fome, à sede e sempre com o risco de vida numa frágil embarcação. Estes imigrantes, cujo crime foi pisar solo português na demanda da sobrevivência são tratados como criminosos. É esta a indignidade da legislação europeia.
As elevadas restrições ao movimento de humanos, contrasta com a livre circulação de mercadorias, incluíndo a razia aos recursos de África, sem qualquer contrapartida para os africanos. A legislação restritiva de migrações não serve os interesses da população europeia nem os da população imigrante, apenas serve os interesses do “capital”. A imigração é a base da Europa laboral, a manutenção da sua ilegalização apenas permite o abuso. Um imigrante ilegal remete-se ao silêncio, sem possibilidade de queixa às autoridades e não tem realmente escolha, sujeitando-se à exploração: ausência de contrato laboral, sem condições de segurança e ganhando o pouco que o separa da escravatura.
Defendo uma Europa de valores e não uma Europa oportunista. Um ser humano não pode ser ilegal. Defendo que a legislação vá ao encontro da realidade e que não feche convenientemente os olhos em nome de mão-de-obra em condições de quase escravatura. A passagem dos imigrantes para a esfera da legalidade concede-lhes os direitos e a dignidade humana, acaba com os abusos do mercado laboral, enriquece a população europeia envelhecida e acaba com a actual fuga à segurança social contribuindo para a sua sustentabilidade.

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quarta-feira, dezembro 19, 2007

Há sindicalistas com pouco para fazer


O presidente do Sindicato de Carreira e Investigação e Fiscalização do SEF disse ontem ao PÚBLICO que as circunstâncias que rodearam a viagem dos marroquinos demonstram que "é viável e muito fácil" alcançar-se a costa portuguesa.

O dito presidente que tente fazer a viagem em barcaça igual, com mais 22 pessoas com a fome, a sede, o frio e o risco a ver se é realmente fácil.

O dito sindicalista acrescenta ainda: Esta preocupação leva a que o sindicato exija um sinal de determinação do SEF: "Logo que as autoridades de saúde digam que está tudo bem com os imigrantes eles devem ser expulsos para Marrocos no mais curto espaço de tempo"

Voltarei a este tema das migrações. E reparei agora que há um ano escrevi sobre este tema, a profecia - agora concretizada - do então ministro António Costa.

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quarta-feira, setembro 12, 2007

O revolucionário institucional


Jerónimo de Sousa «considerou hoje que o Governo português deve «respeitar as instituições, o direito internacional e as relações diplomáticas com outros países em relação à visita do líder tibetano Dalai Lama.»

Para Jerónimo a manutenção do Império Chinês é mais importante que os direitos humanos. Curiosamente o PCP gostaria de ver o Governo português a ignorar relações diplomáticas para apoiar organizações para-militares como as FARC. Mas para o PCP a China é um Império dos bons.

PS e PSD preferem o silêncio em nome dos negócios, à semelhança do Ministro Luís Amado, por «razões óbvias». Apenas o Bloco de Esquerda e o CDS-PP ficaram indignados com a atitude do Governo.

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